Para Gabriele Cornelli
... costura o fio da vida só pra poder cortar
Joyce Moreno
Nossa língua portuguesa (como talvez viesse a dizer o Professor Pasquale) apenas sob rubrica da licença poética abonaria o óbvio equívoco de gramática envolvendo o título desta postagem*. Isso porque, no processo comunicativo, a função que destaca o elemento estético tem permissão de promover um estranhamento intencional cujo resultado acaba dando ênfase ao elemento da mensagem mesma, valorizando-lhe a especificidade. Nesse caso, o emissor erra de propósito para que o receptor, no uso de seu repertório, seja mais interativo na reinterpretação do discurso como um todo.
Se fosse o caso de alterarmos o elemento estranho que toma “o” umbigo como feminino afirmando, então, que deveria ser classificado como substantivo neutro – conforme no idioma inglês, ignorando-o como he or she e chamando-o por it – isso também precisaria ser questionado semioticamente, posto que assim estaríamos camuflando certos elementos indispensáveis. O fato de o umbigo estar tanto no corpo masculino quanto no corpo feminino não o torna indiferente e simplesmente comum aos gêneros.
Em que pese diferença de sexos não definir, de fato, a simples inclusão ou exclusão do umbigo nesta ou naquela figura anatômica, não me sinto autorizado proceder a uma redução indiferenciadora e simplificadora que me prenda apenas à ocorrência do umbigo, descurando daquilo que o umbigo significa como referência. E o que ocorre no umbigo, sem sombra de dúvida, é sempre um referir à mãe. Sua substância de referência é inegavelmente feminina. Ele significa ela.
Adensando um pouco mais, em toda designação a coisa significada não se esgota no significante; um nome (qualquer nome) sempre re-apresenta determinado objeto concreto ou coisa abstrata a que se refere, privilegiando apenas algum aspecto desse objeto ou dessa coisa. Daí, grandeza e miséria naquilo que inventamos: a maravilha de uma linguagem atrelada a impossibilidades e limites inerentes. Com efeito, aquilo a que o umbigo se refere é muito mais que seu nome e seu lugar na gramática.
Assim, além de feminino (por força de referência), o umbigo remete a uma feminilidade que, pela dimensão poética de seu caráter semiótico, ultrapassa bem mais seu paradigma léxico de substantivo masculino. Quem sabe, portanto, em virtude de uma impropriedade gramatical, dizer que na corpoética o umbigo é substantivo feminino acaba contribuindo, às avessas: ajuda a perceber e criticar, pelo menos, uma discutível hegemonia de gênero incrustada em nosso código lingüístico.
(Entre parênteses e apenas como exemplo um pouco à margem, todos sabem do imenso ônus machista impregnado em nossas regras para a elaboração do plural; bastando para tanto lembrar que se nove mulheres e um homem vierem a ler esta postagem, no total teremos dez leitores, como se, absurdo dos absurdos, um leitor valesse mais que nove leitoras !!!)
Mas voltando ao tema e admitindo que o umbigo não seja neutro, e nem substancialmente masculino, desejo expor três ângulos (dentre outros que escapam ou extrapolam) em que “ele” é muito mais feminino do que se chega a supor, amiúde. Como signo sobremodo peculiar, o umbigo registra de maneira qualitativamente privilegiada algumas denotações e conotações que oportunizam ênfases femininas para o pontual, o pessoal e o punctual da corpoética.
Numa perspectiva somática, umbigo é essa contraditória marca pontual de continuidade versus ruptura. Sendo cicatriz, com notável precisão, sublinha o que há de índice feminino nestas pregas de nó. Como índice, guardando uma relação de antecedente/subseqüente, o umbigo é signo da mãe no próprio corpo da prole. A sucessão na secção. Um corte desligando conexões. Interrupção de passagem, o índice do umbigo obriga a relacionar essa parede de agora com uma ponte anterior, quando o caminho estava livre, quando o conduto durante meses foi o único fio de uma complexa simbiose ligando mãe e embrião. O umbigo aponta para si mesmo como resto de um cordão de continuidade, pela via feminina – naturalmente única. E justo pelo que era, o umbigo se torna também, por contradição necessária e vital para a mãe (muito mais que para o feto) indicativo de uma ruptura nessa função feminina não só exclusiva quanto a maternidade, como também exclusiva para uma gestação específica. O umbigo, portanto, sucede essa simbiose per-feita, essa conexão original/originária/originada. Tocar no umbigo é recontatar algo de que se separou por conta de um primeiro corte; é, com toda certeza, retocar um passado feminino e, quem sabe, até uma saudade absoluta.
Numa perspectiva psíquica, umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do âmbito pessoal corpóreo. Sentimentos se convertem e se divertem em torno desse ícone de prazeres, desse pequeno pólo de pele sem pelos. Por feliz coincidência, o feminino de todo umbigo está em sua iconicidade, em seu aspecto de espaço vazio, em sua abertura sedutora e aconchegante, pro-vocando bolinagens várias. Aliás, não é sem destaque que constatamos a evolução semântica do étimo umbigo. Tratando-se originalmente do diminutivo de umbo – termo latino significando protuberância (que sugere até uma alusão ao clitóris) – passa depois a denotar seu contrário, ou seja, cova (que pode insinuar vagina e útero). Desta imagem de ausência (cavidade, caverna, buraco), representando algum ambiente propício para acolher e re-crear, depreendo aquilo que a sedução do umbigo comporta de feminilidade maior: a arte da moldagem – que faz no interno e pelo avesso: coisas, casos, causos... Assim, no vazio do umbigo, em sua ausência constitutiva, se presentifica uma feminilidade.
Numa perspectiva pnêumica, umbigo é um convite à fé, ao ris(c)o do entusiasmo, à fisgada punctual da espiritualidade corpórea. E esse punctum funciona como símbolo; tipo de acupuntura que acaba mediando ser e existir. Através de símbolos sabemos/sentimos/sonhamos; existimos, além de sermos isso ou aquilo. Todo símbolo é uma espécie de virtualização (... uma aliança no dedo de quem ama re-põe virtualmente a pessoa amada). Assim também o anel umbilical: ao simbolizar o corpo da mãe também virtualiza, repõe sua maternidade. E independente de juízos de valor, o símbolo da maternidade no umbigo é sempre signo/sinônimo de nova re-novação da vida. Por meio do umbigo como símbolo, religamos na corporeidade physis e mythos, natura e cultura. Sem umbigo e sem símbolo nosso existir se extingue. Em suma, se o arriscado romper com a segurança pretérita é exigência feminina, o umbigo é relíquia e sacramento, meio de graça, inspiração para o espírito corpóreo insistir teimosamente em se tornar sempre aquela criança nova que, no útero da fé, revive o sonho da plenitude femininamente eterna.
Noutras palavras, conforme os recortes de nossa anatomia e de bem com as opções de nosso erotismo, podemos recuperar instâncias de nossa feminilidade no desvelamento e no mistério do umbigo e, quiçá, melhor assumi-la sem falsos pudores ou nocivas arrogâncias que só nos imbecilizam em reducionismos machistas e/ou generalidades feminiscóides. Até quando, pergunto, seremos presas dessas ideologias que nos afastam de nós mesmos, separando-nos de nossa constituição e invenção corpóreas? Até quando abriremos mão de nos reencontrarmos umbilicalmente ligados às nossas inegáveis origens e melhores possibilidades? Até quando a feminilidade nossa de cada dia ficará alienada, bem no umbigo de nós mesmos, conspirando contra nossa corpoética? Por fim e sem pretensões conclusivas, admito que responder estas questões é desafio constante e coletivo. Também suponho que a feminilidade do umbigo instiga incontáveis mo(vi)mentos de te(n)são entre as dimensões somáticas, psíquicas e pnêumicas do corpóreo. E aposto, ainda, que a corpoética está destinada a se encontrar no umbigo, a se superar com o umbigo, a se salvar pelo umbigo.
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* Postagem elaborada a partir de publicação na Revista Tempo e Presença, nº 322; Rio de Janeiro: Koinonia, 2002.