27 Janeiro, 2012

lembrança

 



Para Nanah

  

Em nome do desejo, invocamos as estrelas. Em nome das estrelas, invocamos as cores. Em nome das cores, invocamos a música. E pneumicamente a música se faz verbo quando,


ao aguardar, nuvens verdescortinam azuis farfalhando delírios
ao revés do frontispício, ocasiões espreitam vangoguianos acasos
ao mirabolante ensaio, incandescências alquimiam vapores distraídos
ao ponto de fuga, transverso estranho embala horizonte à toa
ao sobrepor vírgulas, rubros umbigos aveludam silêncios
ao clinch sinuoso, cubos vienam secessão e êxtase
ao flanco andino, fôlegos palavram seus universais
ao roçar gramíneo, cócegas eriçam volúpias a dedo
ao espelho gelado, lágrima prata espeta tépido polvilho
ao compósito mondriano, impulso encorpa sereno turbante
ao exótico ângulo, seqüências disparam com gosto de sábado
ao desembarque impossível, pessoas desejam só ares e símbolos
ao enquanto do sempre, zumbe essa juventude inquilina da fantasia
ao longo do lugar, luzes e estrelas beliscam sonhos vestidos de branco
ao prisma dos espectros, olhares molhados mascaram paleta veneziana
ao pé das pirâmides, jabuticabas oblíquas devoram vestígios de enigmas
ao encrespar das castanholas, decalques yogues flamejam rosas e anjos
ao duelo combinado, corridas sucumbem nas caçapas das delicadezas
ao fiel da balança, aro triplica desejo e deleite no prato do destino
ao diapasão das horas, sorrisos sintonizam pizzicati das apostas
ao cuidado das crianças, teimosia brinda sustenidos e bemóis
ao senhoreco mo(vi)mento, mago dos anéis rouba a cena
ao apito adriático, caras e bocas simulam arquipélagos
ao escape repentino, helicópteros pilham pó e arroz
ao glorioso decote, sorriso palma excitante anseio
ao limiar das sombras, lábios da noite luam licores
ao final, linhas vazias evocam coloridas reticências










31 Dezembro, 2011

aquele réveillon



Para Sergio e Leila


Mais uma vez aqui e agora uma experiência pessoal. Faço menção ao que vivenciei com minha esposa na entrada de 1998. Desejo, a propósito, que essa exposição seja desculpada, pois apenas pretendo sublinhar um detalhe da pnêumica como sacaramento – uma sacada com cara de sacramento (conforme já publiquei neste blog em abril de 2010, num texto dedicado a outro Sergio Marcus).

Em meados do segundo semestre de ’97 ouvíamos colegas comentando seus planos de viagem para o réveillon. Alguns anunciavam com certa afetação esnobe que iriam espocar champagne próximos à emblemática torre da Cidade Luz, ou nas encantadoras e geladas avenidas da Big Apple, ou nas praias badaladíssimas sob as bênçãos do Redentor.

Cá entre nós, sem muita grana e também sem grilos, começamos a pensar numa comemoração meio arteira: um réveillon que nos permitisse depois dizer com boca cheia aos tais colegas que estivemos em um lugar cujo nome não trouxesse a menor nuance de charme e sofisticação. Queríamos reinventar uma gratuidade celebrativa na total ausência de gracinhas consagradas. Buscávamos um meio de graça que nos salvasse das mistificações dos sistemas e escaninhos de aperreios travestidos de glamour. Pretendíamos fugir das seduções do mundo-cão para arriscarmos criar algum sentido pontual e provisório; porém prazerosamente punctual, fisgador de contentamento mais denso para a existência.

E assim, tendo como critérios a duvidosa elegância do seu nome e a inusitada suposição como lugar atraente, nós decidimos visitar uma pequena cidade localizada a cento e cinqüenta quilômetros de nossa casa. De fato, a história dessa centenária comarca abriga momentos memoráveis e personagens ilustres. Contudo, nosso interesse naquelas ruas e praças era muito mais discreto e despretensioso. Lá chegamos pela manhã do último dia do ano, sem reserva para hospedagem, e nos instalamos numa pousada muito simples. Tomamos nossas refeições na trivialidade. Contornamos, à distância, ceias divulgadas por buffets e clubes sociais. Descontraidamente passamos o tempo na surpresa do instante e na leveza do estar-junto-por-inteiro.

Por volta da meia-noite nos aproximamos do que julgávamos ser o centro daquela cidade. Entramos e saímos da Igreja Matriz, onde poucos fiéis rezavam. Preferimos sentar à beira do meio-fio do calçamento. Ouvimos as doze baladas do campanário. Brindamos o ano novo bebendo água de uma garrafinha de plástico, comprada no balcão do bar da esquina. Ficamos ali agachados conversando por muito tempo, profundamente felizes.

Essa experiência singela nos marcou a ponto de sempre ser mencionada quando nos referimos aos nossos melhores réveillons. Pneumicamente nós vivemos na simplicidade de sublime sarjeta uma complexa superação dos constrangimentos oportunistas do embuste da zero-hora-mágica. Aliás, todos nós sabemos de inúmeras situações festivas de final de ano (... e nos incluímos nessas circunstâncias muitas vezes ainda) em que as farsas e os desgastes do espírito-de-pseudofilia baixam com mais freqüência, maior preferência e imensa inconseqüência.

Sempre conviria perguntarmos por que tanto mal estar nessa civilichatice? As respostas são todas bem vindas. Uma em particular: esquecemos que a definição cultural determinando um dia como 31 de dezembro é historicamente arbitrária e coincidiria com um dia 19 de março ou com um dia 19 de setembro noutra marcação igualmente arbitrária noutra configuração histórica. Não há diferença necessária entre os dias, exceto suas peculiaridades naturais. Nossos símbolos é que fazem toda a diferença. E os símbolos, sendo nossos, por que não reinventá-los sempre?

O melhor disso tudo foi que nossa entrada em 1998 nos confirmou uma criança ainda sobrevivente em nós. Ela esperneia e quer brincar de outra coisa, jogar outra pnêumica, saborear outra espiritualidade. E essa reinação nos resgata quando nos damos o desfrute de sermos mais inteiros na intimidade e cumplicidade em meio ao cotidiano imprescindível.

Quem sabe, talvez, o que importou mesmo naquele révellion e que deveríamos repetir todo-santo-dia é que eternizamos a noite, qualificamos a passagem, e despertamos a criatividade. No sentido pnêumico a repercutir o étmo franco réveiller, conseguimos acordar ao refazer símbolos para nossa vida.










30 Novembro, 2011

pet





Para Kiki, Duke e Feijão.



Queen swapped her court... Bobby non mangiare più pasta... Dusty et Kate sont loin, très loin... Freud esqueceu sua mãe... Porém, pelo sim, pelo não, o que todos simbolizam domestica mistérios. Felizmente para inúmeros humanos, pets valem e velam alguma pnêumica para a vida. Afinal, a corpoética quase sempre inventa sentidos para a existência a partir de coisas, casos ou causos extraordinários.

Muitos cães, gatos, peixes, camundongos, tartarugas, papagaios etc. deixam de ser o que são e passam a sustentar projeções de nossas demandas, quiçá desejos mais profundos. Com eles por perto parece que estamos espiritualmente abrigados, sentimo-nos como em casa, com alguma segurança, apesar do caos nos labirintos da alma. Mais que companhia, o bicho é transubstanciado: pet-sacramento.

Idolatrados, substituem a solidão. Sem dúvida, animais sobremodo estimados sublimam até ausências irreversíveis ou saudades inconfessáveis. Fantasticamente, essas criaturas salvam, curam, inspiram... Com efeito, bem melhor dir-se-ia: graças à nossa arte, nessas criaturas também desenhamos nossas imaginações mais divinas – miscelâneas míticas que movem mundos maravilhosos.






30 Outubro, 2011

memória


Para Ruth, Zara e Zizinho; Adriana, Márcio e Luana.


Como sói acontecer com gente há muito nascida e criada em pequenas e pacatas cidades do interior, também fiquei meio abobado quando conheci o mar.

Recordo detalhes de quando ainda (... ou, já?) era adolescente. Durante a descida na serra, num Gordini gordinho de gente, frango & farofa, me senti ensurdecido num tanto que, tonto, engolia ansiedades a cada curva da Anchieta.

Avistando o Atlântico a uma distância tão imensa quanto a vontade de chegar, me emudeci numa alegria azul..., até que na Praia do José Menino a brisa arrepiou penugens de menino-zé.

Ao pisar na areia surpreendentemente quente percebi que os pés se afundavam com facilidade, dificultando meu passo apressado. Depois, ao correr pelo chão espelhado que espalhava espumas, me encantei com assoviantes cosquinhas ao resvalar das passadas.

Quando entrei na água o vai-e-vem das ondas malandras me desequilibrava e caí muitas vezes com o bum-bum pra riba. Mas, de imediato recomposto, me pegava sorrindo de contente. No céu da boca grudou o gosto de um tempero que se desperdiçava na gratuidade..., enquanto meus olhos saboreavam estrelas em claro dia.

No limiar da perplexidade, quase sequestrado dos limites de tempo-e-espaço, por breves e densos mo(vi)mentos me encontrei ao me encontrar como que perdido. Acho até que meu corpo experimentou a eternidade, resgatando um pouco da minha história...

Quando voltei para a casa branca das boçorocas, passando pelas campinas das andorinhas, me dei conta que estava com ânimo e entusiasmo ampliados, mais apaixonado pela vida.



Esses parágrafos autobiográficos precariamente pretendem salientar uma saudosa pnêumica da praia. Aliás, praia é fronteira simbólica contaminadora: de um lado está o que agita e oscila a superfície da sobrevivência; de outro lado o que atrai e desafia apostas mais profundas. Esses lados, ainda que opostos, não se excluem; mas no contraditório se complementam. Praia é, pois, tanto interstício quanto intersecção; é fiapo híbrido separando e conjugando alguma segurança de planície ou planalto e muito mistério marinho.

Para quem não mora no litoral, passear pela praia sugere sair do curso cotidiano; é um ex-cursionar incomum, extra-ordinário. Há nesse passeio um apelo punctual fisgando o pnêuma além das provocações psico-somáticas. Tal caminhar areja horizontes existenciais desenhando silhuetas de sentido.

Metaforicamente, o mar é música. Seu fraseado fugidio parece notação a pautar alguma chave interpretativa para variações, incluindo o silêncio. Assim, enquanto passeia pela praia, o corpo afina seu pnêuma inalando imagens e fantasias para exalar memória eucarística: sacramento visceral: ainda viver!








30 Setembro, 2011

pnêumica de um beijo






Para Vasti Marques, Alba Belotto, Yone da Silva e Liséte Espíndola





Passeando paixão por breve parábola,
imagens seduzem serenos silêncios:
enquanto energia emerge no caos
átomos cantam pelos cosmos.
Uma trama embala belezas
com voz d’água na terra:
berro húmus-humano
taça toda de barro.
Qual espelho vivo
luz laça na saia da chuva
arco-íris roçando cerne e carne:
beijos de deus nos lábios do mundo.

Mas riscamos na tela do cosmo figura do caos:
assustamos os átomos para espanto das crianças;
não podemos nem brincar nos sussurros de regatos
agora degenerados em esgotos das grotescas infâmias.
Nas sobras dessas sombras ainda assombram pesadelos;
angústias ainda grudam em gargantas engolindo gritos;
insônias ciscam noites, confessando que ainda é cedo,
que ainda estamos sós, amigados com o remorso.
Nos olhos falta luz, e lágrimas perdem cores;
desde há muito não há mais arco na íris;
tudo é acre, bílis, massacre, busílis;
desamor, desamor, desamor...




Contudo, do anseio mais denso e profundo
um sonho se fez corpo, brotou conosco
no aconchego último do único útero
parindo signos do eterno desejo.
jesus com jeito de gesto justo
se sujeita a injusto gesto desajeitado;
despetalando sangue sobre aridez cósmica
floresce fontes de névoas nos abismos noturnos.
cristo: cristal de prisma arcoirizando nova teimosia,
ressuscitando sol e assunto nas esquinas das almas,
musicando manhãs, moldando aromas tenros:
chances de sorrisos nas faces da história.

E assim outro saber lambe saudades,
purgando inferno no céu da boca,
saboreando graça borboletante:
oratórios no labor da utopia.
Em vez dessas vastas devassas,
espaços enluarados de verdes véus;
ao invés dessas curvas turvas nos rios,
risos descalços pelas pedras das cascatas.
Alquimia da vida, dança das sete notas
gotejando prazer no arco da lira;
concretos avisos bonitos:
anjos do amém.









30 Agosto, 2011

umbigo: substantivo feminino

Para Gabriele Cornelli






... costura o fio da vida só pra poder cortar
Joyce Moreno



Nossa língua portuguesa (como talvez viesse a dizer o Professor Pasquale) apenas sob rubrica da licença poética abonaria o óbvio equívoco de gramática envolvendo o título desta postagem*. Isso porque, no processo comunicativo, a função que destaca o elemento estético tem permissão de promover um estranhamento intencional cujo resultado acaba dando ênfase ao elemento da mensagem mesma, valorizando-lhe a especificidade. Nesse caso, o emissor erra de propósito para que o receptor, no uso de seu repertório, seja mais interativo na reinterpretação do discurso como um todo.

Se fosse o caso de alterarmos o elemento estranho que toma “o” umbigo como feminino afirmando, então, que deveria ser classificado como substantivo neutro – conforme no idioma inglês, ignorando-o como he or she e chamando-o por it – isso também precisaria ser questionado semioticamente, posto que assim estaríamos camuflando certos elementos indispensáveis. O fato de o umbigo estar tanto no corpo masculino quanto no corpo feminino não o torna indiferente e simplesmente comum aos gêneros.

Em que pese diferença de sexos não definir, de fato, a simples inclusão ou exclusão do umbigo nesta ou naquela figura anatômica, não me sinto autorizado proceder a uma redução indiferenciadora e simplificadora que me prenda apenas à ocorrência do umbigo, descurando daquilo que o umbigo significa como referência. E o que ocorre no umbigo, sem sombra de dúvida, é sempre um referir à mãe. Sua substância de referência é inegavelmente feminina. Ele significa ela.

Adensando um pouco mais, em toda designação a coisa significada não se esgota no significante; um nome (qualquer nome) sempre re-apresenta determinado objeto concreto ou coisa abstrata a que se refere, privilegiando apenas algum aspecto desse objeto ou dessa coisa. Daí, grandeza e miséria naquilo que inventamos: a maravilha de uma linguagem atrelada a impossibilidades e limites inerentes. Com efeito, aquilo a que o umbigo se refere é muito mais que seu nome e seu lugar na gramática.

Assim, além de feminino (por força de referência), o umbigo remete a uma feminilidade que, pela dimensão poética de seu caráter semiótico, ultrapassa bem mais seu paradigma léxico de substantivo masculino. Quem sabe, portanto, em virtude de uma impropriedade gramatical, dizer que na corpoética o umbigo é substantivo feminino acaba contribuindo, às avessas: ajuda a perceber e criticar, pelo menos, uma discutível hegemonia de gênero incrustada em nosso código lingüístico.

(Entre parênteses e apenas como exemplo um pouco à margem, todos sabem do imenso ônus machista impregnado em nossas regras para a elaboração do plural; bastando para tanto lembrar que se nove mulheres e um homem vierem a ler esta postagem, no total teremos dez leitores, como se, absurdo dos absurdos, um leitor valesse mais que nove leitoras !!!)

Mas voltando ao tema e admitindo que o umbigo não seja neutro, e nem substancialmente masculino, desejo expor três ângulos (dentre outros que escapam ou extrapolam) em que “ele” é muito mais feminino do que se chega a supor, amiúde. Como signo sobremodo peculiar, o umbigo registra de maneira qualitativamente privilegiada algumas denotações e conotações que oportunizam ênfases femininas para o pontual, o pessoal e o punctual da corpoética.

Numa perspectiva somática, umbigo é essa contraditória marca pontual de continuidade versus ruptura. Sendo cicatriz, com notável precisão, sublinha o que há de índice feminino nestas pregas de nó. Como índice, guardando uma relação de antecedente/subseqüente, o umbigo é signo da mãe no próprio corpo da prole. A sucessão na secção. Um corte desligando conexões. Interrupção de passagem, o índice do umbigo obriga a relacionar essa parede de agora com uma ponte anterior, quando o caminho estava livre, quando o conduto durante meses foi o único fio de uma complexa simbiose ligando mãe e embrião. O umbigo aponta para si mesmo como resto de um cordão de continuidade, pela via feminina – naturalmente única. E justo pelo que era, o umbigo se torna também, por contradição necessária e vital para a mãe (muito mais que para o feto) indicativo de uma ruptura nessa função feminina não só exclusiva quanto a maternidade, como também exclusiva para uma gestação específica. O umbigo, portanto, sucede essa simbiose per-feita, essa conexão original/originária/originada. Tocar no umbigo é recontatar algo de que se separou por conta de um primeiro corte; é, com toda certeza, retocar um passado feminino e, quem sabe, até uma saudade absoluta.

Numa perspectiva psíquica, umbigo é uma área que polariza emoções bem no centro do âmbito pessoal corpóreo. Sentimentos se convertem e se divertem em torno desse ícone de prazeres, desse pequeno pólo de pele sem pelos. Por feliz coincidência, o feminino de todo umbigo está em sua iconicidade, em seu aspecto de espaço vazio, em sua abertura sedutora e aconchegante, pro-vocando bolinagens várias. Aliás, não é sem destaque que constatamos a evolução semântica do étimo umbigo. Tratando-se originalmente do diminutivo de umbo – termo latino significando protuberância (que sugere até uma alusão ao clitóris) – passa depois a denotar seu contrário, ou seja, cova (que pode insinuar vagina e útero). Desta imagem de ausência (cavidade, caverna, buraco), representando algum ambiente propício para acolher e re-crear, depreendo aquilo que a sedução do umbigo comporta de feminilidade maior: a arte da moldagem – que faz no interno e pelo avesso: coisas, casos, causos... Assim, no vazio do umbigo, em sua ausência constitutiva, se presentifica uma feminilidade.

Numa perspectiva pnêumica, umbigo é um convite à fé, ao ris(c)o do entusiasmo, à fisgada punctual da espiritualidade corpórea. E esse punctum funciona como símbolo; tipo de acupuntura que acaba mediando ser e existir. Através de símbolos sabemos/sentimos/sonhamos; existimos, além de sermos isso ou aquilo. Todo símbolo é uma espécie de virtualização (... uma aliança no dedo de quem ama re-põe virtualmente a pessoa amada). Assim também o anel umbilical: ao simbolizar o corpo da mãe também virtualiza, repõe sua maternidade. E independente de juízos de valor, o símbolo da maternidade no umbigo é sempre signo/sinônimo de nova re-novação da vida. Por meio do umbigo como símbolo, religamos na corporeidade physis e mythos, natura e cultura. Sem umbigo e sem símbolo nosso existir se extingue. Em suma, se o arriscado romper com a segurança pretérita é exigência feminina, o umbigo é relíquia e sacramento, meio de graça, inspiração para o espírito corpóreo insistir teimosamente em se tornar sempre aquela criança nova que, no útero da fé, revive o sonho da plenitude femininamente eterna.

Noutras palavras, conforme os recortes de nossa anatomia e de bem com as opções de nosso erotismo, podemos recuperar instâncias de nossa feminilidade no desvelamento e no mistério do umbigo e, quiçá, melhor assumi-la sem falsos pudores ou nocivas arrogâncias que só nos imbecilizam em reducionismos machistas e/ou generalidades feminiscóides. Até quando, pergunto, seremos presas dessas ideologias que nos afastam de nós mesmos, separando-nos de nossa constituição e invenção corpóreas? Até quando abriremos mão de nos reencontrarmos umbilicalmente ligados às nossas inegáveis origens e melhores possibilidades? Até quando a feminilidade nossa de cada dia ficará alienada, bem no umbigo de nós mesmos, conspirando contra nossa corpoética? Por fim e sem pretensões conclusivas, admito que responder estas questões é desafio constante e coletivo. Também suponho que a feminilidade do umbigo instiga incontáveis mo(vi)mentos de te(n)são entre as dimensões somáticas, psíquicas e pnêumicas do corpóreo. E aposto, ainda, que a corpoética está destinada a se encontrar no umbigo, a se superar com o umbigo, a se salvar pelo umbigo.

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* Postagem elaborada a partir de publicação na Revista Tempo e Presença, nº 322; Rio de Janeiro: Koinonia, 2002.







31 Julho, 2011

adega pnêumica






Para Christian et Margot





Espírito espumante

Nas câmaras da história, a natureza e o trabalho se seduzem em apelos e apertos. Densos bagos acolhidos por tesas mãos afogam de cores e aromas corpos sedentos de sentidos. Nessas núpcias pulsa vida pelas veias da paixão. E a escorrer no leito do tempo, qual mancha sangrando de prazer, se abre espaço para mais um desejo: n'outro beijo, o gozo do vinho.



Espírito rosé

Quando a palavra do corpo é gesto de alegria, nostalgia; gosto de amor, amargor... Melhor ouvir o silêncio dos cálices se quebrar ao som das volúpias de um gargalo prenhe de vinho.



Espírito seco

Sob as parreiras, tantos sonhos alçaram tesouras, tantas senhas incharam tesouros, tantas manhas lincharam terceiros, tantas manhãs lançaram terrores: sob as parreiras, cultuando desvalores para a casa – clareiras na floresta de curtume escatológico – assim diz o opressor: veni, vidi, vici.

Sob as parreiras, ainda uma saída ainda que sofrida; ainda um horizonte ainda que distante; ainda um encontro ainda que sozinho; ainda aquele sonho porque imprescindível: sob as parreiras, cultivando amores e asas – lareiras na festa do perfume antropomágico – assim diz o oprimido: veni, vidi, vínum.



Espírito suave

Se a chuva caiu como luva sobre a pele da uva. Se os abraços dos anéis de ferro fundido foram fiéis à vontade vertida no ventre dos tonéis...; que mais senão amar, doar e trocar: brindar.

Então vem, vagueia e voa; boleia uma bem boa; desbloqueia o que destoa...; para que um novo lugar lembre o antigo lagar lambendo luz do luar.

Por isso vem; pois vou indo contar meu enredo enquanto te caminho. Por isso vem; vem vindo a cantar meu segredo enquanto te ad-vinho.



Espírito tinto

Topos: penetrações de bios; colo e sala das utopias.

Eros... E eis os nossos corpos bebendo isso em memória (mistérios da vida).

Cronos: variações de necros; cela e vala das entropias.

Tanatos... E eis os nossos corpos bebendo isso in glória (mistérios da morte).

Demos: situações do logos; cala e fala das idiossincrasias.

Theos... E eis o nosso cálice fazendo disso estória (mistérios do vinho).







30 Junho, 2011

oikoumene



Para Flávio Irala, Esequiel Gonçalves e Caetano Teixeira


Já não é sem tempo que o assunto/título merece alguma referência nessas postagens. Por suposto, um registro sobre espiritualidade corpoética deve ser uma pnêumica também interessada pelos assuntos ecumênicos.

Assim, considerando que o termo grego oikoumene em sua acepção mais consagrada equivale a todo o mundo habitado, aproveito essa alusão à completa abrangência para lembrar ligeiramente três aspectos: quanto o caráter ecumênico implica, pressupõe e se justifica pelas variações valorativas do espírito; como crescem e nem sempre se convergem esses diversos valores para a espiritualidade corpórea; e por isso mesmo quão valioso pode ser a ecumenicidade como uma espécie de elogio à diferença pnêumica.

Admitindo que a invenção pnêumica encante a própria corporeidade, entendo que essa poética do espírito, em si, é motivo suficiente para celebração, pelo menos por parte desse corpo criador. Afinal, essa pnêumica corresponde a uma afirmação da corpoética – condição que tanto desvela a individualidade quanto se abre para a alteridade. Ou seja, pela criação espiritual também se caracteriza a diferença de cada corpo. E quando tal fato corpóreo é percebido como potência de todos os corpos, a ecumenicidade suscita um acolhimento inclusivo do outro corpo, oportunizando âmbitos de comunhão.

Conforme venho expondo neste blog, toda pnêumica consiste numa espécie de arte simbólica que atenda ao eventual desejo de sentido para a existência da corporeidade; por isso, a espiritualidade corpoética é aberta e sem limitações de qualquer ordem. Nessa perspectiva, a pnêumica é ecumênica numa conotação da espiritualidade de fundo (fundante e fundamental), anterior até mesmo àquela que toma formas religiosas e doutrinárias (... por sinal, formas legítimas, geniais e pragmáticas).

Noutras palavras, como conceito, o caráter ecumênico da pnêumica tem a ver com o reconhecimento, o desdobramento e o arrebatamento do corpo diante de algo significativo em maior grau (às vezes, absoluto). Tal grandeza é moldada pelos fatores específicos de lugar e época. É o corpo em toda e qualquer cultura reconhecendo sua situação comum de mortal, e que se desdobra para forjar um significado que lhe arrebate. Essa catarse pnêumica é, portanto, tão ecumênica (tão secularizada, tão sem-fronteira, tão todo-mundo-habitado) que tende a sublinhar e sublimar todas as diferenças e pluralidades de sentido.

Toda espiritualidade corpórea, por conseguinte, apenas se reduz na gratuidade: a graça do corpo criando paixões para a vida.






30 Maio, 2011

(s)agrada pelo movimento






Para Magali e Josefina


Tudo que move é sagrado
Guedes & Bastos


Elias e Jóca encantaram numa cancha de bola-ao-cesto, bem ao lado de um imponente e antigo prédio com tijolo à vista. Toda bendita segunda noite de lua cheia (... pois, na véspera, sempre namoram suas respectivas Musas) eles jogam vinte-e-um assobiando qui-nem-miñinus.

Quando se posicionam na cabeça do garrafão, em lance de três pontos, sonham nove notas com infinitos sustenidos e bemóis. Daí, ao longe, de vez em quando, quase se ouve os hermetismos sincopados que cantarolam à bocca chiusa.

Parece que Elias arremessa uma idéia: Ela é sagrada removendo.
Logo o Jóca pergunta: removendo o quê?
Responde Elias: a realidade caótica.
Jóca: como?
Elias: esquinamente.
Jóca: por quê?
Elias: a existência corpoética tem desejo de ser o que não é.

Então chega a vez do Jóca lançar um pensamento: Ela é sagrada comovendo.
Retruca Elias: comovendo quem?
Jóca: a corporeidade em sua tensão de pathos/logos diante do mistério.
Elias: quando? onde?
Jóca: no kairós, em plena trivialis.
Elias: por...?
Jóca: ... por conta da experiência catártica num deleite de sentir ucronos em utopos.

E um pouquinho antes da alvorada, os dois duelam um dueto lembrando que Ela é sagrada promovendo, com gratuidade cosmética, pelo extraordinário, para a seqüência fantástica no destino de recrear ausências.

E assim que o sol reaparece, as vozes de Elias e Jóca continuam pneumicamente ecoando agrados e sacralidades pelas campinas das almas que amam o movimento da Música.






30 Abril, 2011

passagens e saídas

Para Silvia Bolliger e Maira Camargo



 


páscoa:
passagem pela paixão

 páscoa:
porção para o passo previdente

páscoa:
promessa de preciso e precioso porvir

páscoa:
praga que pega e pune opressivos poderes


êxodo:
signo da sobrevida no silêncio do sepulcro

êxodo:
surpresa sacudindo o saber sufocante

êxodo:
sabor de sorrisos sussurrados

êxodo:
saída sobre o susto







30 Março, 2011

sangue da alma








Para Maria e Gessé





Em Georges Bizet, com sua Carmen..., como em João Cabral, com seu Ferrageiro de Carmona..., labirintos de Sevilla serpenteiam luta sui generis: fatídica e férrea. Um derrame pelo fogo e pela forja.

Dobrando esquinas agudas e decisivas, uma espiritualidade sevilhana seduz o viver pleno. A lâmina abate, o martelo rebate moldando pnêumicas no limite das horas e das honras.

Senão, pouco antes da estrela, seria precipitação; para além da gentileza, haveria ruptura. Por isso e tanto, isenta de qualquer dúvida, eis a tensão serena dignificando sensações e sentidos nas veias da alma.

Rezar as contas - o que mais conta. Augusta Contabilidade. Rosário para “salve rainha”. No mais, ainda e sempre a serenidade - luta lúcida e alongada pelos escaninhos do mistério com transparências louváveis.

Viés da paz. Véus da alegria.



27 Fevereiro, 2011

coélet em quebec

Para Janyne Sattler



Como adverte aquele texto sagrado dos hebreus, há tempo para tudo; para ficar calado e para falar. E nesta postagem quero falar sobre ficar calado. Também demonstrou um importante vienense (... e assíduo leitor do referido texto) que sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar. E nesta página, em singela homenagem acima indicada, pretendo aludir sobre um silêncio solitário e solidário.

Sei que ficar calado não equivale de maneira necessária escutar. A ausência do verbo não estabelece obrigatoriamente o acolhimento aos signos que circulam. Por isso, o silêncio nem sempre está no registro da comunhão. Porém, por grato aprendizado, ainda que sutil, uma comunhão há quando o silêncio profere seu dizer, mesmo sem falar.

Ainda reconheço que a solidão é uma experiência mais abstrata, subjetiva. Ocorre tanto no evidente isolamento corpóreo quanto em meio à complexa aglomeração social. É um caso e não uma coisa. A solidão, portanto, parece mesmo compor um estado de espírito. Situação pnêumica. Mescla de verdade última com matriz virtual.

Quando a alma está só, finalmente em sintonia com sua humana origem semiótica e seu inexorável fim ôntico, um sublime gozo a vivifica. Nessa solidão repousa uma serenidade digna. Porém, quando a capsula do espírito – bolha fugaz – se angustia no vai-e-vem sem sentido, a explosão do nada está por um triz. Nessa solidão se agitam dores e coisa alguma, e ninguém, consegue aplacar as terríveis fisgadas dessa câimbra no músculo da alma. Em suma, solidão, mais que tudo, é ventre para partos e abortos.

Assim, na condição solitária pode nascer uma comunhão solidária se emergirem chispas de vivência plena, um viver absoluto das relativas circunstâncias. O requisito indispensável da solidariedade é, pois, a qualificação alcançada no vestíbulo do desnudamento solitário. As cócegas e os arrepios da alegria... As coceiras e os hematomas da tristeza... Tudo isso e muito mais precisa acontecer na solidão para que seja preciosa a solidariedade. E isso ocorrendo, até o silêncio solitário traz à luz a comunhão solidária.

Enfim, a solidão, o silêncio e a solidariedade se espalham e se espelham como gêmeos pelos pedaços do mundo. Pedaços pequenos. Muito pequenos. Pedaços que cabem apenas nas pelagens da alma – esse infinito sem fim, esse pleonasmo a esmo. Sim, solidão, silêncio e solidariedade passeiam de mãos dadas e visitam os noturnos contornos do coração, como gatos fantásticos pelos campos de peixes, como rios sórbios por montes reais... E eis ainda uma inconfidência meio cifrada (quase wittgensteinianamente eclesiástica): solidão, silêncio e solidariedade às vezes sonham ganhar nomes próprios; gostariam de atender por Aninha, também por Dusty, ou mesmo Kate...





25 Janeiro, 2011

happy hour

Para Rosângela Abakerli



Mais um jeito de comungar parece consagrado na contemporaneidade. Trocado o idioma e ajustadas novas formas simbólicas, aspectos importantes da provinciana pnêumica Hora da Ave Maria foram repaginados à moda do consumo metropolitano e rebatizados como happy hour. Por sinal, o horário foi praticamente mantido, próximo às 18h. E mais, sendo uma busca por um tempo feliz, nele companheiros de pântanos e nuvens abrem suas almas para confidências e confissões. Ocorrem ainda nesse tipo de encontro (... outro nome para ekklesia) reverberações secularizadas do que outrora eram as reuniões devocionais que nutriam algum sentido para a existência.

Dentre várias características, happy hour é momento de curtir conquistas, de chegar junto, de erguer astral, de sobrepor incentivos. Tudo ao vivo, colorindo a oralidade no seu fator mais inerente e necessário: a presença - esse privilégio claro, raro e caro: face-to-face, zóio-nu-zóio! Sem dúvida que nem sempre todas essas (e outras mais) características ocorrem num mesmo encontro. Afinal, happy hour não é um evento que segue um roteiro, uma série de procedimentos encomendados. A espontaneidade e a transparência geminadas com uma postura flexível são pressupostos imprescindíveis e inalienáveis desse tempo feliz. Portanto, há em cada ocasião o acontecimento sem ensaio, como puro improviso e nunca mais repetido.

Curtir conquistas é celebrar. É a espiritualidade em festa. Reino da alegria. Ao celebrar, o brinde cintila contentamento. E isso espoca brilho nos olhos. A vida ganha seu instante de glória. Com água ou bebidas fermentadas, o simpósio das almas transborda metáforas pelos nacos de pão. Sem dinheiro e sem preço que equivalham plenamente esse tempo feliz, a pnêumica sente um gosto de paraíso resgatado. E assim, a conquista celebrada imanta continuidade de projetos entre pessoas que se admiram, se respeitam e se amam.

Noutro contexto, a very special happy hour também é ocasião para a amizade traduzir consolo no instante da dor. Simpatia e empatia são experiências muitas vezes mais autênticas num papo de boteco do que em lugares formalmente rubricados para cura d’almas. Aliás, como expresso alhures, só quem de fato já pastou é que pode apascentar outros aflitos. A pastoral da consolação é preciosa e precisa, é bálsamo das palavras pontuais e dos silêncios envolventes. Entre a escuta acolhedora e o dizer mais desvelado, diante da unhappy flower, gente sincera exala uma essência sem máscaras – antídoto para o sofrimento do sofrimento do sofrer. E se sobra algum choro, lava-se a alma.

Nessa hora também se levanta o astral de quem está no outro lado da mesa ou de quem resvala cotovelo no mesmo balcão. Como pós-moderna benedícta tu in muliéribus, essa pnêumica um tanto isabelina promove novo alento, revigora o ânimo e salva o fôlego da falência. Eis a benção - a expressão mesclada com palavras adequadas, gestos eloqüentes, gírias cabíveis, e eventuais e oportunos palavrões; ou seja, um bendizer-com-boa-dose-de-bons-desejos. Isso sopra um ar luminoso no vazio corpóreo, exorcizando legiões de mentiras e seqüelas de rasteiras. Isso é como água viva para o balde da existência, socorrendo as vítimas dos sobressaltos. Isso resgata a réstia de estima do espírito, apalavrando poesia para a fome de futuro.

Enfim, mas sem significar limite, happy hour ainda é tempo feliz para lançamento de desafios. Contra posturas débeis e acomodatícias que desperdiçam potencialidades e qualificações, a conversa regada a sonhos se abre para o entusiasmo. Possuídos por pnêumica criativa, os amigos de galas, gelos e goles, cruzam os horizontes dos fatos e avançam, gulosamente, espe(ta)culos adentro. Correm para o destino decisivo: conquistar a plena vivência de si mesmos. Às vezes, sem saber, propõem algo demasiado. Aperitivo com sabor de aposta. E assim se habilitam para alcançar o imprevisível, o diferente, o inédito. Ave magia!



27 Dezembro, 2010

ritos populares

Para Marina Campos



Povo é sinônimo de cultura. Entre os elementos culturais estão os ritos. Não há povo sem cultura e nem cultura sem rituais. A especificidade dos povos, das culturas e dos ritos embala a vida das pessoas em seus lugares e momentos. Esse embalar funciona, pelo menos, em três sentidos: como invólucro que protege; como balanço que acalenta; e como munição que potencializa. Em todos esses três sentidos há um caráter mágico.

A magia do rito depende muito do desconhecimento da história que explica e interpreta o rito. Essa ausência de domínio e manejo de dados políticos, econômicos e ideológicos sustenta e reforça a imaginação e a fantasia que as pessoas adquirem e reciclam ao logo dos tempos e regiões. Com isso as pessoas não percebem que o rito não tem poder em si, mas que sua força está na criação espiritual da corporeidade, sendo uma conquista de quem o pratica.

Talvez, numa perspectiva sobremodo polêmica, o sentido do rito corresponde a uma forma social de embalar a experiência da vida diante do imponderável, do surpreendente, do mistério. Esse recurso cultural faz um movimento de pêndulo: de um lado os desejos mais profundos da alma humana e de outro lado os símbolos mais competentes para expressar a aposta na vida. Por isso, é cabível supor que os ritos também sejam produções, processos e produtos da espiritualidade corpórea. Pertencem à pnêumica.

Necessário lembrar ainda não ser alguma eventual comprovação aquilo que sustenta os ritos. O âmbito da prática ritual não se submete aos critérios da demonstração científica ou da clareza filosófica. Aliás, muitas vezes é exatamente a ausência de provas que favorece a insistência ritual. Quanto menor o retorno lógico da racionalidade sobre a eficiência e a eficácia do ritual, maior é o investimento da fé. A dificuldade ou a inexistência das garantias dedutivas exercem grande fascínio e parecem justificar e legitimar o exercício ritual da crença. Fica sempre uma sombra de dúvida no espírito do crédulo: e se eu não for agraciado justo por não cumprir fiel e detalhadamente o rito?

Conforme parece aceitável, os detalhes dos ritos configuram discursos simbólicos. Apresentam linguagens verbais e/ou não verbais. Provavelmente os ritos não-verbais sejam, em sua grande maioria, criações populares. Na esfera popular as imagens, os gestos e as encenações ganham prevalência sobre expressões verbais. No registro popular importa mais é fazer do que falar. Este sem aquele, não vale muito; aquele mais este, por certo amplia valor. Portanto, mais do que dizer “vou pular sete ondas”, é imprescindível entrar na água e cumprir a coreografia dos saltos sobre os soluços da maré. Mais do que afirmar “vou trocar as folhas de loro na minha carteira de dinheiro”, é obrigatório renovar o estoque do tempero na panela portátil do numerário pro gasto e pro gosto cotidiano. Mais do que teorizar sobre isso ou aquilo, tem que haver a prática do ritual. E essa prática dos ritos é sagrada na pnêumica popular. Reveste o que é comum com uma aura de espiritualidade.

As pessoas se sentem estimuladas para a prática dos ritos por conta de um desejo, de um sentimento apaixonado, de uma emoção. O desejo reclama uma falta, uma carência. A paixão conduz a uma prática que é alheia ao juízo racional. A emoção encaminha complexos procedimentos rituais. Portanto, desde um desejo, por via de uma paixão, o impulso emocional faz com que as pessoas se movam, se movimentem de maneira concreta, até mesmo de modo pragmático. E o resultado disso pode ser a realização dos objetivos – que são, com efeito, outro rótulo até para os desejos guiados pelas paixões.

Em suma, portanto, muitas mudanças de atitude decorrem de percepções intuitivas, bem próximas ao campo das experiências rituais. Ou seja, o empenho na busca da realização dos sonhos tem um aliado nos rituais porque a própria prática do rito exige uma logística racional (ainda que, como sentido último, não dependa da racionalidade). Se não houver um cuidadoso preparo para a prática ritual, esta não ocorre. Esse cuidado preparatório, acrescido do cuidado operacional do rito mesmo, acaba por disciplinar e treinar a corporeidade para uma eventual e necessária metodologia noutras situações da existência. O apuro e a acuidade ritual podem, assim, acarretar qualificações geralmente imperceptíveis, porém bastante efetivas na gestão das práticas presididas pela razão e pela lucidez objetiva.





30 Novembro, 2010

remédio da alma





Para Quinita



Quando o sentido para a existência padece de hematomas azuis não há bálsamo que cure. Resta remediar com arte o que arte alguma restaura por completo. Pura ilusão a serviço da saúde do corpo alquebrado, no entanto lúcido; inconformado, todavia lírico - como soe acontecer a alguns que sozinhos e teimosos se socorrem na angústia.

A arte simula e nisso se porta veraz. Justamente por não se pretender pura e prática, sabe-se à perfeita tensão contraditória e estranha. Degusta a gratuidade criativa. Isso é tudo. Isso não garante coisa alguma. Aquém e além de qualquer condição, eis porque a arte se estoca e se administra como remédio da alma. Pnêumica salvífica.

Esse fármaco do fôlego vital é labor de oratório. Tal arte é experimentação analítica das fissuras perpetradas por faíscas que apunhalam e esgarçam sentimentos. É química silenciosa, sorriso sublimado, oração à esperança da paisagem oportuna. É pranto pelo avesso. É reza rio acima, rumo à rua do espírito sem resíduos.

No paradoxo profano, essa arte parece hino: louva a existência em meio a lacunas e mistérios. Nada desmancha e nada apaga certezas de alegrias outrora impecáveis. Daí a canção do sopro supremo em seu apocalipse absoluto: quem viveu, confessa. E, então, no desejo, deleite e destino, o fiel comunga o eterno sacramento da saudade íntegra e feliz no artesanato das reciclagens.

De mãos dadas com essa arte, a alma descansa de sua rotina e vertigem numa confiança maior. Feito leoa em sesta serena, seu âmago ansioso viaja pedaços de paz. Com tal arte a consciência dorme seu sonho de curvas e vírgulas. Como privilégio impagável, esse sono se resgata quando as janelas dos segredos se abrem para o sublime devir. Coragem de viver.

Com efeito, depois das tardes e madrugadas em vigília contra dores limítrofes, como é triste, profundamente triste, ficar descartado diante dos brindes à ressurreição. Por essa arte, entretanto, até a mais dolorida primavéspera transmuta-se em estrela dourada numa noite vangoghiana. E assim essa arte da superação se inspira no câncer da ostra para florescer sua poética de pérola.

E como arte final uma delicadeza executa seu réquiem de meio-tons. Em lugar de gritos desafinados, o coração carinhoso sussurra suas dissonantes sob harmonia de pautas terapêuticas. Apesar do descompasso e desencontro incontornáveis, ainda se evoca a ternura – essa música da arte de ser surreal na dignidade de um amém.

30 Outubro, 2010

comunhão secreta



Para Pri



A espiritualidade corpoética vive grávida de mistérios. Cordões da imaginação alimentam os vazios desejantes aonde símbolos vão embrionando jeitos de trazer à luz algum sentido para a existência. Do útero da alma ao prosaico cotidiano, a pnêumica guarda mistérios.

Quando essa experiência do fôlego existencial, mesmo diferentemente, entusiasma um conjunto de corpos, as pessoas envolvidas sentem uma sintonia pnêumica densa e versátil. As maneiras de esses mistérios serem referidos, ainda que jamais transferidos, são modos de comunhão, formas de comunicados muito particulares. Nessa troca espiritual pode ocorrer, às vezes, a partilha de segredos. Segredos são exclusividades verbais, gestuais ou de qualquer outra codificação criada à parte do que indistinta e comumente acontece.

Os segredos pnêumicos equivalem a determinadas representações simbólicas dos desejos mais profundos. Com esses segredos a alma não só configura novos signos na criação de sentido para a existência como também, mediante o segredo, reveste esse sentido de uma película protetora contra a abordagem e a invasão deletérias das banalizações de toda ordem. A propósito, a graça do segredo consiste, antes e acima de tudo, evitar a repetição ociosa.

No silêncio de um olhar eloqüente ou na saudade inefável revista e revisitada no recesso do coração florescem os segredos que sustentam sentidos para as existências de almas-geminadas-para-sempre. Assim acontece um exercício espiritual de cumplicidade afetiva ou política ou lúdica ou poética ou mítica etc. Independentemente do conteúdo do segredo pnêumico que congrega pessoas, a forma secreta da comunhão é que garante muitas vezes uma qualidade eterna na duração das existências. Ou seja, se o assunto do segredo é sempre do âmbito informativo, parece mais correto ainda supor que o recurso secreto é para sempre da esfera formativa – instância mesmo da irredutível pnêumica.

Assim, porque o fato de se comungar um segredo já é em si um gratificante sentido para a existência, o magma oculto desse segredo lateja astúcias vitais, e como uma chispa quântica se manifesta iluminando a vastidão desafiadora da noite pnêumica. O privilégio e a responsabilidade da comunhão secreta conferem à corpoética uma serena tensão, uma delicadeza aguda, com toda a incrível nuance que isso implica. E esse viver comunicativo-cúmplice espelha a intensificação mesmo da misteriosa aventura da existência humana. Plenitude pnêumica. Vida em abundância.



30 Setembro, 2010

um sentido existencial

Para Ricardo, Helena e Carmo





por mediúnica esperança
noite adentro daquele sábado
guias encarnados de minh’alma
fiaram no ventre ausente e só
surpresas, sinais e silêncio
fluidificando plasma
de eterno afeto





Conforme referenciais deste blog, pnêumica é a espiritualidade corpoética, entendendo corpoética como um modo de pensar a complexidade do corpo em suas dimensões peculiares, históricas, valorativas e inovadoras. Essas dimensões envolvem, se interpenetram e salientam o que cada corpo é em seus (indissociáveis) aspectos materiais, emocionais e espirituais. Aliás, esse nível espiritual é o pnêuma, concebido como uma respiração concreta perceptível revestida por alguma inspiração abstrata imprescindível. Assim, na acepção aqui assinada, a espiritualidade é o corpo criando símbolos muito especiais para os desejos mais profundos e mais significativos. É um fôlego do espírito, um sentido para a existência. Óbvio que é possível viver sem sentido, porém essa alternativa é rara e exige uma estrutura corpoética mais rara ainda. O comum é a aceitação ou a criação de um sentido que justifique e legitime o viver para a própria existência corpórea.


São inúmeras as alternativas que figuram como sentido existencial. E dentro dessa imensa variedade destaca-se uma qualidade muito extraordinária de amor. Para tanto, esse amar deve corresponder a um desejo acima e além de outros desejos; um desejo tão denso e tão amplo que acaba se constituindo perspectiva e horizonte vitais daquele que ama. Como símbolo pnêumico, esse amar reapresenta um sentido existencial traduzido em sentimento e ação. Ou seja, esse amar nascido do espírito corpóreo é imagem e prática de um desejo simbolizador para o viver.


Além disso, e de um modo mais específico, parece consenso que amar alguém como sentido existencial é uma experiência repleta de sutilezas. Entre angústia e êxtase proliferam insondáveis e inefáveis nuances. Quem assim ama tropeça em lágrimas sobremodo onerosas bem como levita nas alegrias mais íntegras. Nada escapa ao que ama nessas condições; por isso sua existência não fica em dívida, nem duvida sobre o que seja viver mesmo, no limite do humano. Aquele que ama dessa maneira equilibra fel e fé no cadinho das apostas de luz; ou, por outro ângulo, saboreia o privilégio de celebrar o sublime tangenciando a felicidade.


Principalmente em contextos de crise esse amor como sentido existencial sustenta uma coerência contraditória. Por um lado, esse espírito flambado pelo amor não tem como mentir para si mesmo; assume a irresistível vocação do amor incondicional que sente pela outra pessoa, independentemente de tudo e todos. Por outro lado, sendo amor incondicional, o sentido da existência é atender sem reservas à pessoa amada, ainda que isso, eventualmente, resulte nos piores dos sofrimentos àquele que ama. Portanto, na crise fica intensificada a espiritualidade como símbolo-para-desejo. Afinal, mais do que nunca, na crise, o desejo acontece por causa de uma carência aguda na alma de quem ama; e o símbolo como substituto incompleto, precário e inexato presentifica justo um amado ausente.


Repetindo e comentando mais, o amar como sentido existencial guarda uma condição simbólica através de seu caráter sublime. A sublimidade desse amor é símbolo daquilo que a corporeidade vivenciou, vivencia, vivenciará e/ou vivenciaria fora do que é usual e costumeiro. É símbolo de sublimidade, portanto, o fato de esse amor ultrapassar previsões de todo tipo para as diferentes experiências relativas ao poder, ao prazer, à paixão etc.


Mas como convém ainda considerar com ênfase extrema, esse amor como sentido existencial é antes e para sempre experiência ímpar nos momentos felizes. Para algumas pessoas, além de significar o porquê e o para que viver, esse amor é o fato mais importante e o feito mais gratificante na vida. Nada se compara ao sentimento de alegria e à ação de ternura para quem ama pneumicamente. A plenitude possível da materialidade, da emotividade e da espiritualidade corpóreas alcança seu ápice nesse amar incondicional. Quem o experimenta, jamais deixa de guardá-lo carinhosamente em seu íntimo, haja o que houver. E se o imponderável ousar interromper a fluência desse amor como sentido existencial, nada diminui e nem destrói esse sentido existencial ao se continuar a amar assim mesmo sem a continuidade da poderosa, aprazível e apaixonante fluência. Nesse caso a pnêumica corpoética de quem ama-como-sentido-existencial declara sua teimosa esperança: antes de morrer, ainda viverei inteiramente meu amar com meu amor. Nenhum inverno aborta a primavera.


30 Agosto, 2010

superstição


Para Nancy Cardoso


 
Algumas pessoas parecem indecisas sobre o que o mês de agosto talvez reserve e distribua. Sim, não crêem em bruxas, porém admitem que elas estejam por aí. E pelo sim ou pelo não, diz o bom senso que é melhor não cutucar geringonça com vara curta. Vale, no caso, uma pnêumica de equilibrista em cima do muro.

Outras pessoas acreditam e confessam que agosto evoca e provoca arrepios na espinha da alma. A propósito, nesses dias elas seguem mais ainda os magos de plantão que aconselham redobrar as simpatias contra os perigos e riscos de desgosto. E por isso essa gente se empenha numa pnêumica de encantamentos, marcada por ritos e cuidados extraordinários.

Contudo, também há pessoas que consideram todas as superstições, incluindo as relacionadas ao oitavo mês, como mistificações ingênuas, porém comprometedoras. Acham que algumas crendices ajudam a camuflar as hostilidades da natureza e a ausência de escrúpulos da história. Portanto, no meio dessa gente há quem viva sem grandes fantasias e com aguda criticidade. Muitas vezes essas pessoas gritam que enquanto olhos com remelas forem forçados a lamber panelas sem ovos não há gosto para tudo e todos numa sexta-feira, treze. Azar? Sorte? Destino? Não, não e não. É o intestino lacrimejando a morte. E essa indignação profética revela, certamente, uma espécie de pnêumica super tição.



19 Julho, 2010

o filho de dona benta

Para Liliana e Willem


Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Há tanta moça na espera. Suas gentis primaveras um desperdício de flor.
Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro, um peito de remador. Ah, quem me dera as morenas pra consolar suas penas, para abrandar seu calor.
Olha elas sempre aflitas, bata o vento ou caia chuva. Cada uma mais bonita e mais viúva. Todas elas fazem ninho da saudade e da virtude; mas carinho, queira Deus que Deus ajude.
Onde andará Nicanor?
Tinha nó de marinheiro quando amarrava um amor. Mas há recantos guardados nos sete mares rasgados, sete pecados tão bons.

Onde amará Nicanor?

Chico Buarque
Está para completar um ano desde que, ligeira e ludicamente, ficamos sabendo sobre o desperdiciodeflor inventado pelo filho de Dona Benta (*). Talvez agora tenha chegado o momento de bisbilhotarmos um pouco nesse parabólico blog outras postagens. Algumas nos dão a oportunidade de conferir sua literatura autobiográfica e, assim, de aproximarmos de uma dor profunda que envolveu esse homem quando beirava a terceira idade. No caso, portanto, não se trata de destacarmos detalhes de como Nicanor, ainda menino, perdeu sua mão direita por causa de uma bombinha com síndrome de Herodes numa festa de São Pedro.

Para todos os efeitos, aliás, nem mesmo o próprio Nicanor conheceu bem as razões e as conseqüências desse sofrimento específico que será exposto de maneira incompleta nos próximos parágrafos. Assim, vale o aviso: se os motivos e os desdobramentos dessa agonia escaparam à alma do próprio sofredor, menos ainda seremos nós capazes de alcançar o recôndito de sua pnêumica buarqueana de emblemáticas e antigas canções.

Retomando só um pouco a saga da espiritualidade de Nicanor, convém lembrar que por longo tempo (da sua adolescência até a casa dos trinta anos) ele se agarrou a um sentido para sua existência, um sentido que já estava pronto e que ele candidamente recebeu, aceitou e defendeu com grande entusiasmo. Por razões outras e variadas, esse sentido foi se esgarçando até não lhe ser mais pnêumica suficiente. Então Nicanor vagou por imensas e áridas cavernas, e comeu o amargo pão dos desiludidos. Não podia ser de outro modo. Assim como antes se saciava em águas tranqüilas, depois, coerentemente, não podia mentir pra si mesmo sobre uma mistificadora confiança de que nada mais lhe faltaria. Aliás, o filho de Dona Benta não tinha como continuar acreditando em receitas de palavras sem sua pertinente corpoética, sem que a própria corporeidade pudesse criar com suas complexidades de circunstâncias um sentido para a vida.

E como diz o ditado que a vida começa aos quarenta, graças a um evento fortuito e imediatamente assumido, o sentido da existência de Nicanor foi por ele mesmo encontrado. Esse sentido envolveu uma pessoa, um nome. Uma pessoa, um nome até então desconhecidos. Esse sentido não representou, portanto, apenas uma abstração metafísica; configurou alguém de carne e osso, emoção e inteligência, história e mistério. Alguém que passou a iluminar a vida de Nicanor. Não demorou muito e uma metáfora compôs a insustentável leveza para o espírito de Nicanor. Era Diana.

Depois de idas e vindas, encontros e desencontros, o amor por Diana levou o filho de Dona Benta a compor um hino ao acaso, à ocasião, ao fôlego, à palavra, ao desejo, ao símbolo. Alguns amigos mais queridos se perguntaram o que teria acontecido para tanta arte. O que levou Nicanor a celebrar seu amor em forma de poesia e música? Nicanor, seguro e reservado, respondia que uma conversa muito importante com Diana fez toda a diferença para eles.

Ninguém nunca soube qual foi o teor dessa conversa. Ninguém nunca soube que no âmago dessa conversa houve uma revelação, emergiu uma verdade. Ninguém nunca soube qual verdade Nicanor e Diana encararam e encarnaram. O certo, sem dúvida, foi que a revelação dessa verdade libertou Nicanor, garantiu seus projetos, sustentou sua confiança. Nicanor ficou feliz, muito feliz. Sua alma, seu coração, seu pensamento, seu corpo..., passaram a ter muito mais sentido ainda com Diana. E Nicanor alcançou a certeza absoluta de que estaria com Diana até o fim de seus dias.

Então Nicanor trouxe Diana mais ainda para sua alma. Nicanor tocou mais ainda a alma de Diana. Nicanor foi tomado mais ainda pela alma de Diana. Nicanor trocou com Diana mais ainda sua alma. E assim Nicanor confirmou mais ainda sua entrega a Diana, definitiva e inteiramente. No horizonte das horas, dias e décadas, embora nem tudo tenha sucedido em ondas suaves e azuis, foi mais verdade ainda o jeito como Nicanor e Diana viveram em muitas praias sob um milhão de estrelas. E comemoravam cada um de seus meses como quem colhe as melhores uvas para os grandes vinhos.

Porém, contudo, todavia, num momento surpreendentemente inédito e agudamente dolorido Nicanor vacilou diante da verdade. Usou um recurso fútil, ignóbil, abjeto. Fingiu ser Raconni e violentou a confiança de Diana. Completamente equivocado, Nicanor errou diante dos compromissos com Diana. Desconsiderou o significado correto da lição de Fernando Pessoa que disse, a bem da verdade, que o poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Porém, Nicanor não fingiu como devia. Fingiu fuçando com nariz de Pinóquio.

Com isso Diana se desencantou e numa noite se despediu de Nicanor sem qualquer afeto, sem qualquer expressão de carinho. Afinal, Diana sofreu um ferimento traiçoeiro, covarde, indigno. Jamais imaginou que seria trapaceada justamente por quem nutria tanto respeito, tanta consideração e os mais sinceros sentimentos de prioridade e entrega. Diana lamentou com profunda tristeza o que abrira mão para continuar amando Nicanor. Só ela realmente sabia o preço impagável que bancara por preferir Nicanor. E assim Diana sofreu com muito mais intensidade. Sentiu a terra se abrindo para engolir outra vez suas escolhas irreversíveis. Para Diana, simbolicamente, Nicanor matou de novo um sonho de vida.

Enquanto Nicanor não sabia onde esconder sua vergonha num labirinto de terminais intermináveis, Diana seguiu seu vôo sem asas, sem céu, sem pouso. Cada minuto se alongava para ela assim como sua indescritível decepção com Nicanor. E o pior é que provavelmente jamais Nicanor teve a noção exata do mal encravado na alma de Diana. Jamais suspeitou quanta angústia instalou no coração dela. Jamais absorveu o quanto Diana chorou pelas escolhas conscientes, extremas e difíceis que favoreceram Nicanor.

Muito longe de Diana, sozinho e também sem rumo, Nicanor amargou, então, a desgraça de quem estava perdendo o sentido de sua existência. Nem quando ficou sem o Salmo 23 Nicanor sofreu e chorou tanto. Sem Diana a pnêumica de Nicanor ficou arrasada. Sua espiritualidade ficou sem fôlego, sem palavra. O símbolo se esvaziou sem desejo, sem deleite e sem destino. O acaso desviou para o descaso. A ocasião agrediu mais ainda os compromissos.

No tribunal de sua consciência, Nicanor se pegou investigado e o veredicto foi culpa com dolo. A acusação dos fatos cobrou pesado o delito de Nicanor: Como foi que deixou seu compromisso com Diana e se aventurou pelos meandros da farsa? O que justificou ou, pelo menos, explicou uma insanidade sem tamanho, exatamente por parte de quem se dizia tão apegado a princípios morais? Que tipo de exemplo ético acabou virando? Em que bolso ou gaveta de sua experiência escondeu a máxima de Wittgenstein sobre calar acerca do que não se pode falar?

Tempos depois Nicanor, desesperado e sofrendo como nunca, superou seu remorso. Arrependeu-se do fundo de sua alma e apostou com o acaso uma ocasião para pagar seu desperdício de flor, aos pés de Diana.
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(*) Sobre Dona Benta e seus filhos, conferir a postagem:
http://www.pneumica.com/2009/08/o-pao-de-dona-benta.html