30 maio, 2013

pão, palavra e poesia



Para Jether Ramalho, Zwinglio Dias e Anivaldo Padilha.



Talvez eu possa supor, com alguma segurança: o homem não nasce humano, ele se torna humano inventando o pão, a palavra e a poesia. A natureza material do homem, através de desdobramentos e saltos ao longo das épocas e em diversos lugares, cria uma segunda natureza: a condição humana. A isso nomeio corpoética: a complexidade corpórea em sua dimensão concreta, histórica, abstrata, peculiar, prática, criativa etc.

Talvez eu possa supor também, com alguma segurança: é pelo trabalho, mediante a linguagem e com a imaginação que o corpo transforma natura em cultura. Pão, palavra e poesia são resultados daquilo que o corpo cria e, com isso, efetivamente se recria. Em todas essas emergências culturais a natureza é renegada, reafirmada e ressignificada. Detalhando um pouco:

O pão é trigo triturado, em seguida submetido a combinações com outros elementos, depois amassado e finalmente assado. Portanto, o pão – quem sabe, o alimento mais comum às culturas – indica um processo de transformação que, além dessas alterações físicas, também envolve relações sociais nem sempre harmônicas e justas. O pão necessariamente comporta contradições: vida e morte em medidas objetivas e desmedidas engendradas.

A palavra é primeiramente oral; modulação que cada cultura inventa para a passagem do ar pelas curvas e competências da boca. É o som se metamorfoseando em voz, fonema e signo. Sem a concretude do corpo e do sopro fica impossível falar e, menos ainda, dizer. Na enunciação da palavra habita um valor ou nuance do enunciado: codificado pela cultura e incorporado no cérebro. Com efeito, a palavra é disputada pelas idéias, pelos interesses e pelas estruturas de poder – tudo, aliás, fruto e semente de palavras. Na palavra o conflito, a confissão e o consolo transitam como verdades ou fantasias.

Poesia é pão em palavra. Alimenta a respiração transposta em desejo e símbolo. A palavra poética seduz a corporeidade a ponto de esta descolar-se das coisas e dos casos, reengendrando-os em uma moldura de sentido. Espírito. Um figurino mesclado de certeza e aposta veste, assim, a poesia. As variantes desse molde cortam e costuram qualquer tecido semiótico. Os textos da cultura recobrem manequins ou se penduram em cabides pessoais, institucionais, acidentais ou triviais. No registro poético a corporeidade cria sua razão-de-ser, ainda que eventualmente irracional e, no limite, não-ser.

Talvez eu possa supor mais um pouco, com alguma segurança: numa ligeira equação corpoética, o pão está para o somático assim como a palavra está para o psíquico e a poesia para o pnêumico. A propósito, conforme uma antiga passagem da tradição cristã (Mateus 4, 4 – que faz uma citação de literatura hebraica, registrada em Deuteronômio 8, 3), nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus. Ou seja, numa interpretação sobremodo descompromissada: pão e palavra sustentam a vida humana, pois enquanto o pão a supre biologicamente, a palavra abastece sua cultura e, nesta, pode haver uma poesia mais extraordinária que apascenta um eu em meio a desejos profundos e símbolos elevados ao plano absoluto.

E talvez eu possa supor ainda, com alguma segurança: pela poesia são creditados todos os deuses; desde aqueles cultuados pelas religiões até aos camuflados entre fanáticos de toda espécie (dos consumistas aos comunistas). Afinal, toda e qualquer poesia (palavra-pão) que nutre com símbolos-absolutos os desejos-mais-humanos é uma poesia que entusiasma (que diviniza) a condição corpórea; é uma poesia que fomenta/fermenta/formata sentidos para a vida com ou sem construtos explicitamente míticos. Essa poesia é a espiritualidade que anestesia receios e medos, e que municia todo o corpo no enfrentamento aos obstáculos que dificultam seu desejo de viver segundo e conforme seu símbolo supremo. Essa poesia pnêumica é cantada antes, durante e depois da conquista do desejo. Essa poesia transcende sempre. Tem o gosto do eterno.







30 abril, 2013

parábola do primeiro des-maio




Para Cecílio Elias Netto





Há trinta anos, às vésperas do Dia do Trabalho de 1983, preparando uma comemoração realizada pela Pastoral Universitária da UNIMEP, escrevi o texto que transcrevo a seguir. Eram tempos difíceis, em particular por causa do ambiente submetido ao regime de exceção imposto pelos militares – refratários e avessos aos sopros democráticos e socialistas.
Naquela época emanavam das chamadas esquerdas muitas inquietações reivindicativas e algumas atitudes consequentes. Do operariado das grandes empresas paulistas até às salas das aulas mais críticas constatava-se a oportunidade do refrão “vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, conforme cantava Geraldo Vandré.
Assim, nesse contexto sociopolítico bastante complexo, essa parábola do primeiro des-maio procurou expressar um espírito de resistência com certo viés religioso mais secular, apostando na mobilização transformadora das comunidades. Foi um verbo movido por uma pnêumica profética. Sua leitura e os comentários que provocou resultaram em alguma influência, ampliando o entusiasmo de quem se envolvia com uma espiritualidade encharcada pela sede de justiça.
De lá pra cá mudanças ocorreram confirmando algumas propostas e desqualificando vários programas inseridos na sintaxe figurada. A utopia assumida conquistou lampejos inegáveis e amargou traições grandiosas. A rigor, sem negar avanços históricos, hoje é necessário e minimamente lúcido reconhecer que essa parábola não tem sustentação ipsis litteris. Contudo, talvez ela ainda valha um pouco, circunscrita por um ou dois detalhes literários. A conferir.




Da gênese mítica
No princípio era o corpo.
E o corpo se fez humano ao transformar, com sua mediação, caos em cosmos.
No princípio criar era um recrear para o corpo; um fazer que, por princípio, era um negócio lúdico. E o corpo gozava, assim, da imagem e semelhança do prazer.
E nos espaços de um tempo sem limites de compassos, as aleluias brotavam com encanto e propriedade.


Da queda ideológica
Aí, então, um determinado grupo de corpos concebeu e mentira, parindo a inversão do real.
Acobertados em um suvaco de cobra, esses corpos, possessos pelo engano, disseram aos demais: Por que não dividimos as tarefas? Com certeza tudo ficaria racionalizado. Em função do bem comum, uns fariam só o serviço braçal; e outros, só o serviço mental. E para que haja ordem & progresso, poderíamos, ainda, estabelecer uma hierarquia. Que tal?
Desse modo, seduzidos pelo fascínio do falso, todos os corpos (sem exceção) foram violentados de uma forma aparentemente não violenta e caíram no equívoco original. Morderam a si próprios e se engasgaram com o caroço que lhes provocou o primeiro desmaio.
E foi tarde e noite de opressões, elevados à sétima porta da tristeza; cada um por si e o Eu por todos-ninguém. Estava inventado o trabalho. Estava instituído o tripalium. Estava imputada a tortura.
E os corpos se futilizaram, amargando a saudade das manhãs.


Da profecia onírica
A ausência de sentido sentida despertou os corpos para o desejo, habilitou-os para o sonho.
Passaram, então, a denunciar a alienação do trabalho e a anunciar outro quefazer solidário e integrado, a fim de resgatarem o que restava de íntegro e digno na corporeidade.
Travou-se o embate inevitável: de um lado, os corpos comprometidos com o pesadelo, com a exploração e com os privilégios privados privatizados...; de outro, os corpos compromissados com o sonho, com a libertação e com a substituição do trabalho-tripalium por um executar agradável-gratificante.


Do evangelho histórico
Boas notícias se ouviram ecoar em virtude da organização e das conquistas dos corpos interessados na subversão-e-conversão do status decaído.
A mesmice não suportou o poder do novo e foi vencida em algumas batalhas cruciais (... embora não tenha sido convencida de sua possível derrota final), tais como: a abolição do trabalho formalmente escravo; os ensaios de socialização dos meios de produção em alguns lugares e momentos; a redução da jornada de trabalho; a cogestão em conselhos de fábricas em vias de uma democratização localizada; a participação do homem nas prendas domésticas; a eliminação dos aspectos da cor, da raça e do sexo como determinantes do nível salarial (... até que o salário, como tal, seja ultrapassado por uma indiscriminada participação dos produtores nos produtos) etc.
Com efeito, sem dúvida, pelo menos em parte, a verdade (que liberta) viva está.


Do apocalipse utópico
A revelação projetada pela nostalgia das alvoradas primevas e pela esperança de crepúsculos alternativos induziu, conduz e introduzirá os corpos em uma experiência comunitária inexistente ainda, porém viável desde já pela práxis revolucionária.
Noutras palavras, naquele novo-céu-e-nova-terra-por-vir a perda dos sentidos será superada para que se descortine um palco onde a ternura do cooperar dos corpos autores/atores seja o aplauso aos bastidores da história.
Por isso, o corpo se apressa na prece: Venha a nós essa utopia de se cultivar a terra ao nascer do sol; de se temperar o pão a cada dia; de se perambular pelos campos, excitando poros e pelos; de se fruir do ontem ao pensar no sempre-agora; de se saber saber para poder poder, fraternalmente; de se celebrar a vida na concretude dos corpos...
Então, a lágrima-pranto entrará em greve e os corpos a despedirão para um quando-pra-lá-de-longe.





30 março, 2013

improviso e fisgada


 

 

Para Vera Covolan e Paulo de Tarso Souza

 

 
Retorno eventualmente às palavras do premiado escritor tcheco Milan Kundera em seus primeiros parágrafos do romance A insustentável leveza do ser. Diz ele nessas linhas que a vida não é um ensaio, um esboço, um treino. A vida é sempre improvisação, por mais que se planeje e se prepare. Esse viver é único. Por isso, intensa e paradoxalmente, importa viver como se esse viver viesse repetere aeternum...

 

Também volto com alguma frequência ao tema Impromptu na Opus 90 #3 do austríaco Schubert. O romantismo impregnado por um despreparo suspeito, sutil e sombrio do seu fraseado melódico chega a nublar resistências. O coração, assim, assimila o vazio de sentido existencial intrínseco e inerente. Viver espoca e esgota o imediato; não se presta como ponte para outra margem – apenas e incrivelmente imaginada...

 

Às vezes ainda sou fisgado por imagens pictóricas ou sonoras. Acontece aquilo que o francês Roland Barthes chama punctum em sua Câmara Clara. Então, o que se oferece aos sentidos corpóreos suscita recordações e fantasias mais caras, afetivamente mais queridas e, por certo, jamais repetíveis. Hora de degustações à saudade – aquilo que não se reduz ao verbo e a outros signos. Uma primeiridade última, lancinante, pnêumica...

 

Faço esse tríplice introito por conta do filme Amor, dirigido por Michael Haneke. Um filme doloroso e lindo. Expõe uma beleza triste do tamanho da coragem. Exponencia uma coragem mansa que se mancha de vida. Expande uma vida vazante que a angústia embeleza. Expressa uma beleza... Triste.

 

Algumas cenas me fisgaram: evocaram lembranças de meu falecido irmão, pianista e desenhista, nascido num primeiro de abril – como Kundera. Guardo com solenidade e reverência um provérbio de Ephraim (... isso mesmo; era com ph o nome de meu irmão que neste estaria completando sessenta anos): seja como a galinha; mesmo de ponta-cabeça está sempre de cabeça erguida. Com efeito, esse conselho à moda amor fati nietzschiano aposta em superações mais-que-humanas, desde as entranhas da corporeidade.

 

A fotografia do filme – ambientado em apartamento parisiense – reedita composições de Rembrandt. Notável exercício do claroscuro contornando as almas de Anne e George – personagens octogenários vivendo o crepúsculo de suas mãos-e-memórias. Sem concessões, brilham na tela secura e decrepitude. Insinuam-se sombras de carinho e complementaridade. Da bofetada ao beijo, um arco-íris de paleta em cinzas. Tudo regado a uma profusão de ruídos domésticos – apropriada trilha sonora de tralhas acumuladas pelas décadas com amor ou recolhidas para contraditórios cuidados geriátricos. No mais, silêncio e enigmas emoldurando tardes – como convém ao azul.

 

Em tempo, nos enquadramentos sem arranjos melodramáticos, a música comparece pontualmente. Ouve-se a se ver a música mesmo. Nua e íntegra, ela não funciona como fundinho musical para emoções de lastro raso. Clamando por companhia, Bach/Busoni com o Prelúdio Coral Ich ruf zu Dir Herr Jesu Christ. Num divertimento à toa, Beethoven com a ligeira Bagatelle, Opus 126, número 2. E resgatando o eternamente perdido, Schubert com fisgadas do Impromptu, Opus 90, números 1 e 3.

 

Todos esses grandes mestres são conduzidos pelos dedos de um virtuose, Alexandre Tharaud. No filme ele aparece como Alexandre, um ex-aluno de piano do casal de idosos. Aliás, quem sabe, justamente nesse acorde ficção-realidade da música possa ser ouvida uma chave hermenêutica, com destaque para o Impromptum.

 

In promptu (imediatamente). Impromptus (que não está pronto, não expedito, sem ardor). Improvisão. Improviso (repentino, sem prever, inesperado, sem preparo, sem acabamento). Improviso. Existência sem ensaio. Invenção imaginativa ao sabor das injunções circunstanciais, sem muito rigor, nem exatidão, meio às pressas. Convite ao punctum.

 

Punctum: muito aquém e muito além do studium. Fora das considerações estritamente racionais. Punctum: aquilo que não cabe na bagagem filosófica ou científica. Punctum: sublime fisgada na carne da alma. Coisa dos meandros do coração. Improviso do viver. Espelhamento de inevitável, incontornável e intransferível poça de luz.

 

 

 

 



19 fevereiro, 2013

papo de boteco - sexta rodada


 

  

Para José Luiz Sigrist

 

 

 
  

simbora, é a saideira

(pra combinar outra conversa)

 

 
 

Parafraseando Paulo, em sua primeira carta (5: 21) aos cristãos de Tessalônica (Grécia), quero que você questione tudo o que eu disse, não aceite qualquer ideia sem-mais-nem-menos. Se encontrar alguma coisa significativa para você, beleza! Aproveite! Sacô?

 

O apóstolo queria que aqueles tessalonicenses fossem críticos, talvez como os de Beréia na Macedônia, que não levavam gato por lebre (conforme relato dos Atos dos Apóstolos; 17: 11). Acho que ele tinha razão porque quem tá na dos de Beréia, num bobeia, né?

 

Não tive a pretensão de agradar você em tudo, se bem que eu tenha feito tudo para que nossa prosa pudesse ser agradável. Se, quem sabe, consegui interessá-lo um pouquinho mais, nem que tenha sido num único aspecto apenas, me dou por satisfeito.

 

Então, eu proponho que você continue com outras pessoas a discutir alguns dos temas conversados. Seguramente esse procedimento irá ampliar e melhorar profundamente o tópico abordado.

 

E como se faz longe e eu moro tarde, inté...

 
 
 
 
 
 
 
 











 

Com esta postagem concluo a transcrição do livreto papo de boteco. Entendo que vale considerar como continuação dessa conversa o que depois publiquei com o título CORPOÉTICA – cosquinhas filosóficas no umbigo da utopia. O texto desse livro foi minha dissertação de mestrado (1984) no Programa de Pós-graduação em Educação da UNIMEP, coordenado pelo Prof. José Luiz Sigrist.

 

 

 

 

 

30 janeiro, 2013

papo de boteco - quinta rodada


 

Para Ely Éser Barreto César

 

 

 

 
coisas do coração

(sobre o amor)

 

 

 

Volver a los diecisiete

Violeta Parra
 
 
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.
 
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.


Mi paso retrocedido cuando el de ustedes avanza
El arco de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.


Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.


El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.


De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

 
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Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço,
porque o amor é forte como a morte
e duro como a sepultura o ciúme;
as suas brasas são brasas de fogo,
são veementes labaredas.
As muitas águas não poderiam apagar o amor
nem os rios afogá-lo;
ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor
seria de todo desprezado.
(Cânticos 8: 6-7)
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Dentre as palavras mais importantes encontramos uma que se destaca ainda mais: amor. Poetas e profetas, poderosos e pobres, pais e paqueradores usam e abusam deste vocábulo sem que consigam, teórica e praticamente, alcançar a totalidade do amor.

Por isso mesmo é com profunda sensação de superficialidade que ouso caminhar, quase que descalço, tentando indicar para você horas e horizontes que me são significativos nesse infinito espaço do amar.

Procurando caracterizar o amor começo lembrando três substantivos gregos: filos, eros e ágape. Filos é o amor-amizade. Eros é o amor-sensualidade. Ágape é o amor-graciosidade. Numa amizade os pontos comuns é que aproximam e envolvem as pessoas. Numa atração dos sentidos (não só no aspecto sexual) é o prazer que prevalece. Numa relação de graça são os deméritos contornados. Dito de outra maneira, filos e eros exigem circunstâncias favoráveis (se..., porque...), e ágape exime favores (apesar de...). Os dois primeiros são, geralmente, anteriores e menores que o terceiro, visto que o ágape pressupõe, quase sempre, a existência de filos e eros para desenvolvê-los. O amor (filos e eros) que pode haver entre duas ou mais pessoas será também ágape se forem superadas as inevitáveis desavenças surgidas no convívio, mesmo porque ninguém é perfeito.

A propósito, são as crises que oportunizam o aparecimento de ágape. Essa peculiaridade de amor se evidencia num contexto de autenticidade, de sinceridade. A pessoa sincera (do latim, sine cera) é aquela que não tem disfarces, não coloca cera para cobrir os buracos da realidade. Sabemos que essa pessoa sincera é mais uma quimera do que uma prima-vera. Somos seres diferentes e representamos vários personagens. Usamos máscaras (personae, no latim) e sempre que possível procuramos mostrar para os outros o que lhes (supomos) agrada, porque assim (julgamos) seremos bem aceitos, queridos. Se vivemos in-sin-ceros os outros não nos conhecem em nossa essência, só a nossa aparência. Por isso é que nesses casos não somos amados de verdade, já que a verdade do que somos está fora do conhecimento dos outros.

Porém, a sinceridade, a autenticidade, ainda que parciais, podem ser experimentadas. A convivência mais íntima, resultante de um filos, de um eros, junto com seus ajustamentos, encaixes, integrações..., propicia também seus arranhões, ruídos, atritos. Você sabe muito bem que o atrito provoca o aquecimento e que, aumentando o calor a cera se derrete. Logo, a convivência, como situação de desmascaramento, dá chances para a experiência do “apesar de”, para a experiência do amor-ágape.

A superioridade do amor-ágape, que é graça, não anula a luta pela justiça. Pelo contrário, reforça-a. Se o perdão das falhas aproxima os amantes, estes não devem estar insensíveis aos limites mínimos de sua dignidade. Quem cede e nisso se excede, de pessoa só lhe sobre o “ex”. Descuidar dessa dignidade básica é deixar de ser gente. E sem ser pessoa ninguém pode perdoar de verdade; pode, no máximo, desculpar. Aí, em vez de uma nova integração aparece uma justaposição não beligerante, mera trégua posto que a justiça deixou de ser aplicada.

Quem perde a dignidade acaba se coisificando. É bom, portanto, que estejamos cientes das estratégias dos dominadores. Estes, em suas ideologias, defendem um “amor” só de resignações. Concorrem, na verdade, para a implantação da injustiça. Fazem o possível e o impossível para que suas vítimas não se saibam como coisas e se julguem portadoras do “mais sublime amor”. Esperam que os dominados aceitem as sofrências, amordaçados e vendados, ignorando o estupro e a castração infligidos à dignidade humana.

Creio ser importante lembrar um dos principais mandamentos do cristianismo: “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22: 39). Este preceito estabelece uma correspondência poucas vezes acentuada em sua bilateralidade. Comenta-se bastante sobre o amor ao próximo e quase nada sobre o amor a si mesmo. Se eu não me amo, se eu não me respeito, se eu não me valorizo como pessoa criada à imagem e semelhança de Deus [... conforme a crença cristã], jamais terei como transferir esses valores para os outros. Aliás, ser cristão não significa (... como alguns pensam e outros disso se aproveitam) ser otário, tonto, trouxa, vaquinha-de-presépio. Quem assim se comporta não é cristão, não ama...; só se prejudica (... pra não usar outros verbos).

Convém, então, destacar que o amor é versátil. Ele não é sempre e em toda a parte uma mesma manifestação. O amor é crítico, lúcido diante das distintas circunstâncias. Num dado momento ele dá, noutro tira. Uma vez precisa ficar, noutra partir. Um dia calar, noutro gritar etc. etc. Aceito que o amor está sob uma ética situacional que obedece a um princípio-valor maior e mais forte: a consciência digna da pessoa que se sabe indivíduo e como indivíduo numa sociedade de conflitos.

A ausência do amor contribui para o adiamento das soluções para esses conflitos sociais, advindos de razões estéticas, étnicas, econômicas, emocionais etc. A falta do amor, substituído pelo ressentimento, pelo ódio, pode gerar mais conflitos ainda. São muitos os indivíduos que sofrem de um tipo de gastrite cuja origem é emocional. A raiva contra alguém, acumulada e guardada, deveria dar lugar a reivindicação teórica e prática – o estabelecimento da justiça. A medicina psico-somática tem muitos casos patológicos conhecidos nessa esfera do desamor.

Quando a lacuna deixada pelo amor é preenchida pelo descaso, pela indiferença, as consequências são até piores. Por exemplo, no âmbito do poder econômico-político, quem cala consente com as “possíveis” opressões. Na realidade, o amor não pode se pretender neutro. Dietrich Bonhoeffer, considerando e condenando a omissão de alguns chamados “cristãos” diante de um regime totalitário, participou radicalmente da oposição a Hitler. Testemunhou o amor. Chegou ao martírio. Naquele contexto tão agudo e exemplar, seu amigo Martin Niemöller escreveu um célebre poema cuja ideia central é: Quando os nazistas levaram os comunistas, eu me calei porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os democratas sociais, eu me calei porque, afinal, eu não era democrata social. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse. [*]

Amar é aprender a amar. Na escola do amor não há formaturas. Cada estágio cumprido é campo de testes para etapas superiores. O amor, em sua dinâmica, não se contenta com aulas teóricas. Os laboratórios são imprescindíveis. É preciso cultivar amizades, curtir sensualidades, compor graciosidades.

Nesse curso do amor você não pode também desconhecer um outro livro da Bíblia que não fala explicitamente sobre Deus. Trata-se do Cântico dos cânticos, dos Cantares de Salomão. É um poema erótico. Na minha opinião, uma belíssima cantada. Eu sei que algumas pessoas querem ver nesse livro apenas uma analogia de união entre Cristo e sua Igreja. Tudo bem. Só que eu prefiro destacar o que possibilita tal comparação: um caso de amor, a sensualidade das pessoas concretas. Isso porque gosto de detectar o espiritual no material, a fé nas obras, o divino no humano, a graça no charme...

Enfim, tudo que vale custa um preço. A graça não é de graça. Amar pode ficar muito caro, meu caro. Não estou falando, obviamente, de um preço no sentido comercial – isso seria prostituição do “amor”. O preço a que me refiro não se explica, vive-se. Seu valor é apreendido principalmente pela intuição. Está além da elaboração racional, sem que esta seja depreciada. O coração tem razões que a própria razão desconhece, já postulava Pascal. Quando se vive esta pro-vocação do amor o sentido da vida é, de perto, indagado. Então procuro saber: de que modo sou mais pessoa? E a minha consciência responde afirmando: quando estiver disposto a pagar o custo do a-preço.

 
Também te amei quando re-par-ti
de antemão e pra sempre
o que nunca
mesmo pra mim mesmo
conseguido havia;
ainda que para tanto
tanto vivido houvesse.

 
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[*] Nesta postagem faço alguns ajustes corretivos no final deste parágrafo.

 

 

24 dezembro, 2012

papo de boteco - quarta rodada


 

 


 

 

Para Elias Boaventura

 

 

 

 

japoneis tem quatro filhos...

(sobre a liberdade)

 

 

 

Começar de novo

Ivan Lins & Vitor Martins

 
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido.
 
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio.
 
Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido.
Começar de novo...
 
 

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A fé que tens,

tem-na para ti mesmo perante Deus.

Bem-aventurado é aquele que não se condena

naquilo que aprova.

(Romanos 14: 22)

 
 

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Se eu fosse um nipônico recém-chegado a um bairro paulistano muito peculiar, minhas palavras seriam mais ou menos assim: kero fará ke o minha opiniôm sobre o riberdade ta peresa o idea do responsabiridade, si?

 

Formalidades e estilo à parte, a razão dessa perspectiva é a seguinte: Primeiro, considero uma libertinagem, um nocivo desbunde procurar a liberdade sem a responsabilidade. Depois, acho que prevaleceria o medo, o imobilismo defasador se a liberdade fosse abafada pela responsabilidade. Noutros termos, o binômio liberdade-responsabilidade se faz necessário para que se supere concomitantemente a subjetividade pretensioso-temerária e a subjetividade apático-temerosa.

 

Você sabe tão bem quanto eu que a liberdade não é uma questão que se reduz ao subjetivo de cada pessoa de maneira simplista. A liberdade tem, obviamente, suas implicações objetivas, concretas, históricas. É característica da liberdade o não ser mera abstração. É liberdade de alguma situação para outra situação. Sem um fato objetivo que a condicione e outro possível que a convide, a liberdade inexiste. Percebe-se, então, a liberdade como fuga e como busca de circunstâncias específicas. São as contingências passadas que geram a necessidade da liberdade e são as contingências possíveis que irão absorvê-la. A liberdade não tem, penso eu, uma existência própria. Ela não é; ela está. Está em trânsito. Está como que uma maravilhosa passageira abstrata na história concreta dos homens e parece que são poucos os que com ela viajam.

 

Acho que até devo trocar o vocábulo “liberdade” por outro: libertação. É preciso chamar a atenção para a ação de libertar. Esta ação é uma conquista que se efetua com determinação, com garra, enfrentando os riscos com coragem. É uma tentativa que não pode ser recusada. Uma vez concretizada essa ação, o agir libertador deixa de existir como caminho e passa a ser incorporado no objetivo alcançado. Portanto, a libertação está num âmbito metodológico e, como tal, pressupõe um referencial teleológico (um telos: objetivo, meta).

 

Exemplificando, se um filme e a sua projeção está impedida, a circunstância que cerceia sua exibição produz a necessidade de sua libertação (... antes da proibição não havia motivo para se pensar em libertação). A ação de liberar a película é uma tarefa possível; não, porém, previsível com certeza. Caso seja consumada a libertação, esta deixa de ser um ato para ser um fato.

 

Disso que estou falando (... e, reconheço, com muita precariedade) o que merece ser destacado é: não quero que o termo genérico “liberdade” tome o lugar das especificidades conjunturais; o que importa é saber sobre a liberdade DE QUE e a liberdade PARA QUE. Assim sendo, creio que está na hora de comentar um pouco sobre tais situações.

 

De que precisamos nos libertar? Admito que o que nos tira a liberdade pode ser o conhecido e o ignorado, o querido e o odiado, o real e o ilusório, o econômico e o político, o psico-patológico e o sócio-ideológico etc. etc. As situações que nos cativam são múltiplas e versáteis. Posso estar preso por um malfeitor assumido ou por um falso fascinante (vide as ideologias), sendo este último, por sua superior eficácia, mais difícil de ser vencido. Aliás, numa perspectiva teológica, Lúcifer (mais popularmente conhecido por Diabo, que significa enganador) era um anjo de luz e que, portanto, estava relacionado ao radiante, ao fascinante. De passagem, lanço uma pergunta: não é o Diabo um símbolo teológico que corresponderia à ideologia, símbolo político?

 

Para que precisamos ser livres? Sem dúvida, considero como finalidade primeira da libertação a possibilidade de sermos sujeitos de nossa história e não ridículos objetos da estória dos outros. Parece-me que o sentido básico da liberdade é a viabilidade da autonomia. Esta autodeterminação das pessoas implica, inclusive, escapar de um subjetivismo individualista. Ser pessoa livre é ser livre também do egocentrismo (doença da imaturidade) porque ninguém é alguma ou qualquer coisa sozinho e só para si mesmo. A pessoa tem sua dimensão social: sua origem e seu papel.

 

Nesse sentido é interessante o paradoxo apontado pelo apóstolo Paulo aos gálatas (5: 13): Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade: porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Ser livre é ser servo! Só que esse servir não é resultado de um poder-coerção, mas sim motivado por um amor-opção.

 

Para ilustrar essa relação liberdade (opção pessoal) e responsabilidade (situação social) há entre os judeus um relato bastante significativo que envolve a atuação de uma intrépida e linda garota chamada Ester. Sua presença, de rara beleza, conquistou o lugar de esposa de Assuero que, no quinto século antes de Cristo, governava desde a Índia até a Etiópia. Feita rainha, Ester entendeu em dado momento que sua singular posição (por razões estéticas) implicava em compromissos com resultados éticos. Diante de um iminente e eminente massacre de seu povo (os judeus, sob a dominação persa) Ester não pensou só em si. Embora estivesse entre os privilegiados, assumiu a defesa dos oprimidos. Resolveu, então, falar com o rei e quebrou o protocolo palaciano ao se apresentar a Assuero sem ser convidada ou convocada. Essa atitude corajosa poderia lhe custar a vida. E, para resumir, essa história teve um “final feliz”. Maiores detalhes você pode encontrar no livro bíblico que leva o nome de Ester. Vale a pena notar, ainda, que esse livro não apresenta a palavra “Deus”, embora seja considerado sagrado.

 

Por outro lado, são inúmeros os textos bíblicos que, explicitamente, retratam um Deus libertador dos que sofrem na carne e na alma. Temos, por exemplo, a narrativa do êxodo do povo hebreu do cativeiro no Egito. Nesse acontecimento Deus não é visto como um ser que, de tão transcendente, não se simpatiza com os sofrimentos imanentes de um povo. Pelo contrário, nesse episódio Deus é encarado como um Deus encarnado: que toma partido em favor da libertação dos que são marginalizados e silenciados.

 

É com justa razão que, forjada nas contingências da maioria que sobrevive na América Latina, surge a Teologia da Libertação [*]. Entendo que esse discurso sobre as coisas da fé é uma forma mais coerente e concreta de se ver e viver o Evangelho. Sendo o Evangelho uma nova proposta de dignidade para as criaturas, essa teologia da libertação não se contenta, nem se ilude com uma salvação/libertação só para a alma, só para o porvir escatológico. É uma teologia que luta para que o ser humano seja salvo/livre integralmente e, no máximo possível, desde aqui-e-agora. É uma teologia mais abrangente porque inclui e destaca a questão sócio-econômica, a questão político-ideológica no espaço de seu pensar, no espaço de seu praticar.

 

Quero alertar, ainda, que um patamar que se avance no processo da libertação exige uma lúcida vigilância. Seremos ingênuos se, supondo estarmos seguramente livres (em alguma ou em muitas dimensões), descuidarmos das situações que foram vencidas, mas não extintas em suas potencialidades. Só aqueles que se libertam da pretensão de já serem plenamente livres é que o poderão ser mais depressa.

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[*] A Teologia da Libertação surge na periferia do poder eclesiástico, com base eclesial. A partir de critérios hermenêuticos contemporâneos (anos 1960) é revista e desafiada a posição da Igreja Cristã. Inicialmente fica explícita uma opção em favor dos empobrecidos e injustiçados pelos sistemas de exploração capitalista. Como consequência toma-se partido pelas organizações que buscavam uma libertação frente à miséria econômica e ao autoritarismo político.
No contexto desse papo de boteco, o texto acima recebeu influência decisiva de um dos fundadores da Teologia da Libertação: Hugo Assmann (1933-2008). Este teólogo chegou à UNIMEP pela ação visionária e revolucionária do seu reitor à época, anos 1980: Elias Boaventura (1938-2012).