30 Agosto, 2009

o pão de dona benta



Para Stella


Era uma vez uma senhora muito prendada. Chamava-se Dona Benta. Na verdade, Benedetta Incarnazione di Gesù; o apelido apenas facilitava o desejo de respeitosa intimidade que sua figura provocava. Bisneta de italianos, Dona Benta viveu o bastante para contar seus aniversários nos dedos de seus quatro filhos, inclusive aquele primeiro que perdera a mão direita numa explosão de bombinhas na noite de São Pedro, ainda menino.

Viúva bem jovem, com muito esforço Dona Benta conseguiu criar e educar todos os filhos. Dois até cursaram faculdade. Bruna, por exemplo, se formou em Bioquímica e trabalhava como coordenadora de um laboratório de pesquisa muito importante na região metropolitana de Santa Rita do Passado Azul.

O sucesso de Dona Benta estava por conta de sua reconhecida experiência na cozinha. Montou um serviço de entrega de almoço em marmita que atendia dezenas de felizardos todos os dias. E mais, ninguém fazia um pão melhor do que ela nas adjacências. Vinha gente até de longe comprar aquela coisa de dar água na boca, especialmente quando quentinho, no final da tarde, pronto pra derreter manteiga que ousasse dormir em seu miolo. Aliás, sua filha mais velha, Bia, adorava ser cobaia toda vez que o forno abria seu ventre e deixava nascerem delícias de farinha e mistérios.

O segredo para fazer aquele pão maravilhoso Dona Benta aprendeu com sua mãe, que aprendeu com sua vó, que aprendeu com a vizinha de sua bisavó. A única coisa que as pessoas sabiam sobre a fazeção daquele pedaço-de-paraíso-pro-paladar era o seguinte: Depois de preparada a massa, Dona Benta separava uma lasquinha, fazia uma bola e ponhava num copo com água. Depois deitava um cobertor velho sobre o resto da massa e sentava pra ouvir rádio. Assim, um olho no antúrio e outro no copo. Quando a bolinha boiava, Dona Benta descobria a massa e colocava no forno. E se as pessoas perguntassem por que a bolinha subia depois de uns pares de minutos, Dona Benta não tinha resposta senão a que fazia aquilo do jeitinho que aprendera com sua mãe, que aprendera com sua vó, que aprendera com a vizinha de sua bisavó.

De qualquer modo, depois de formada, Bruna apresentou uma explicação pra esse fato intrigante com a massa que emergia como um submarino com cara de lua cheia: ainda no fundo do copo d'água o fermento come a massa e solta um monte de pum; esses gases formam milhares de microbexigas na bolinha que, então, se estufa e fica mais leve até chegar à tona. Isso indica que a massa debaixo da coberta também está com abundância de bolhinhas de vento, pronta pra ser assada e virar um pão bem macio. E todos se encantaram com a aula extraclasse de bioquímica aplicada ao pão de Dona Benta. Contudo, esse conhecimento de Bruna não lhe era suficiente quando nos feriados da semana chamada santa convidava seus colegas de laboratório para um lanchinho em casa. O pão feito pela Bruna era um desafio sem grandes chances para elogios sinceros. É que o pulo-do-gato Dona Benta repassou apenas para outro filho, o Renato.

Renato, além de privilegiado detentor do segredo da mãe, também era o único da família que participava nas reuniões da comunidade religiosa de seu bairro. Às vezes levava para as celebrações o famoso pão da Dona Benta, feito por ele mesmo; afinal ninguém conseguia distinguir a autoria da arte em forma de gostosa sustança. No templo da Congregação Fé & Festa um momento sublime e muito emocionante era quando alguém tomava o pão e dizia algo parecido com "este é meu corpo". Funcionava como magia. Parecia que o pão deixava de ser pão e virava meio de graça, piada divina. Todos sorriam e comiam aquele corpo em forma de fantasia. Renato nem mais se dava conta de que fora o fazedor daquele pão; era o poema-pão que trazia um sentido para sua vida, como que refazendo o próprio padeiro. Renato nascia de novo a cada celebração.

Porém, como nada é pra sempre, Dona Benta morreu. Renato ficou um tempão sorumbático e macambúzio, e descorçoado nem queria mais fazer pão; só voltou à lida depois de uma celebração pela memória da bendita. Bruna se enfiou totalmente no trabalho, tentando compensar a saudade; conseguiu uma terceira bolsa de estudos e foi fazer pós-doutorado em Cambridge, Inglaterra. Bia se descontrolou; enchia de vodka aquele copo usado pela mãe para a bolinha de massa e se afogava na Sibéria de seus invernos; depois se equilibrou e se tornou notável artesã de cerâmica experimental. Nicanor, aquele que digitava seu notebook só com a mão esquerda, aproveitando sua mania filosófica, resolveu registrar pros netos de Dona Benta um palavrório meio estranho que batizou como Breve sistematização conceitual do pão de Maínha. Até postou esse texto no seu blog desperdiciodeflor. No penúltimo parágrafo escreveu: Maínha soube das coisas na sua simplicidade empírica. Seus filhos comeram o pão feito por ela como uma experiência estética, a começar por Bia. Com seus estudos Bruna encontrou teorias para traduzir objetos e métodos de Maínha numa linguagem científica. Renato, o caçula, aprendeu que não é só de pão que se vive; às vezes, palavra e poesia inventam sentidos que a própria vida não tem. Rapa-do-tacho de Maínha descobriu a nuance de uma pnêumica mais benta.