19 Julho, 2010

o filho de dona benta

Para Liliana e Willem


Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Há tanta moça na espera. Suas gentis primaveras um desperdício de flor.
Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro, um peito de remador. Ah, quem me dera as morenas pra consolar suas penas, para abrandar seu calor.
Olha elas sempre aflitas, bata o vento ou caia chuva. Cada uma mais bonita e mais viúva. Todas elas fazem ninho da saudade e da virtude; mas carinho, queira Deus que Deus ajude.
Onde andará Nicanor?
Tinha nó de marinheiro quando amarrava um amor. Mas há recantos guardados nos sete mares rasgados, sete pecados tão bons.

Onde amará Nicanor?

Chico Buarque
Está para completar um ano desde que, ligeira e ludicamente, ficamos sabendo sobre o desperdiciodeflor inventado pelo filho de Dona Benta (*). Talvez agora tenha chegado o momento de bisbilhotarmos um pouco nesse parabólico blog outras postagens. Algumas nos dão a oportunidade de conferir sua literatura autobiográfica e, assim, de aproximarmos de uma dor profunda que envolveu esse homem quando beirava a terceira idade. No caso, portanto, não se trata de destacarmos detalhes de como Nicanor, ainda menino, perdeu sua mão direita por causa de uma bombinha com síndrome de Herodes numa festa de São Pedro.

Para todos os efeitos, aliás, nem mesmo o próprio Nicanor conheceu bem as razões e as conseqüências desse sofrimento específico que será exposto de maneira incompleta nos próximos parágrafos. Assim, vale o aviso: se os motivos e os desdobramentos dessa agonia escaparam à alma do próprio sofredor, menos ainda seremos nós capazes de alcançar o recôndito de sua pnêumica buarqueana de emblemáticas e antigas canções.

Retomando só um pouco a saga da espiritualidade de Nicanor, convém lembrar que por longo tempo (da sua adolescência até a casa dos trinta anos) ele se agarrou a um sentido para sua existência, um sentido que já estava pronto e que ele candidamente recebeu, aceitou e defendeu com grande entusiasmo. Por razões outras e variadas, esse sentido foi se esgarçando até não lhe ser mais pnêumica suficiente. Então Nicanor vagou por imensas e áridas cavernas, e comeu o amargo pão dos desiludidos. Não podia ser de outro modo. Assim como antes se saciava em águas tranqüilas, depois, coerentemente, não podia mentir pra si mesmo sobre uma mistificadora confiança de que nada mais lhe faltaria. Aliás, o filho de Dona Benta não tinha como continuar acreditando em receitas de palavras sem sua pertinente corpoética, sem que a própria corporeidade pudesse criar com suas complexidades de circunstâncias um sentido para a vida.

E como diz o ditado que a vida começa aos quarenta, graças a um evento fortuito e imediatamente assumido, o sentido da existência de Nicanor foi por ele mesmo encontrado. Esse sentido envolveu uma pessoa, um nome. Uma pessoa, um nome até então desconhecidos. Esse sentido não representou, portanto, apenas uma abstração metafísica; configurou alguém de carne e osso, emoção e inteligência, história e mistério. Alguém que passou a iluminar a vida de Nicanor. Não demorou muito e uma metáfora compôs a insustentável leveza para o espírito de Nicanor. Era Diana.

Depois de idas e vindas, encontros e desencontros, o amor por Diana levou o filho de Dona Benta a compor um hino ao acaso, à ocasião, ao fôlego, à palavra, ao desejo, ao símbolo. Alguns amigos mais queridos se perguntaram o que teria acontecido para tanta arte. O que levou Nicanor a celebrar seu amor em forma de poesia e música? Nicanor, seguro e reservado, respondia que uma conversa muito importante com Diana fez toda a diferença para eles.

Ninguém nunca soube qual foi o teor dessa conversa. Ninguém nunca soube que no âmago dessa conversa houve uma revelação, emergiu uma verdade. Ninguém nunca soube qual verdade Nicanor e Diana encararam e encarnaram. O certo, sem dúvida, foi que a revelação dessa verdade libertou Nicanor, garantiu seus projetos, sustentou sua confiança. Nicanor ficou feliz, muito feliz. Sua alma, seu coração, seu pensamento, seu corpo..., passaram a ter muito mais sentido ainda com Diana. E Nicanor alcançou a certeza absoluta de que estaria com Diana até o fim de seus dias.

Então Nicanor trouxe Diana mais ainda para sua alma. Nicanor tocou mais ainda a alma de Diana. Nicanor foi tomado mais ainda pela alma de Diana. Nicanor trocou com Diana mais ainda sua alma. E assim Nicanor confirmou mais ainda sua entrega a Diana, definitiva e inteiramente. No horizonte das horas, dias e décadas, embora nem tudo tenha sucedido em ondas suaves e azuis, foi mais verdade ainda o jeito como Nicanor e Diana viveram em muitas praias sob um milhão de estrelas. E comemoravam cada um de seus meses como quem colhe as melhores uvas para os grandes vinhos.

Porém, contudo, todavia, num momento surpreendentemente inédito e agudamente dolorido Nicanor vacilou diante da verdade. Usou um recurso fútil, ignóbil, abjeto. Fingiu ser Raconni e violentou a confiança de Diana. Completamente equivocado, Nicanor errou diante dos compromissos com Diana. Desconsiderou o significado correto da lição de Fernando Pessoa que disse, a bem da verdade, que o poeta é um fingidor; finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. Porém, Nicanor não fingiu como devia. Fingiu fuçando com nariz de Pinóquio.

Com isso Diana se desencantou e numa noite se despediu de Nicanor sem qualquer afeto, sem qualquer expressão de carinho. Afinal, Diana sofreu um ferimento traiçoeiro, covarde, indigno. Jamais imaginou que seria trapaceada justamente por quem nutria tanto respeito, tanta consideração e os mais sinceros sentimentos de prioridade e entrega. Diana lamentou com profunda tristeza o que abrira mão para continuar amando Nicanor. Só ela realmente sabia o preço impagável que bancara por preferir Nicanor. E assim Diana sofreu com muito mais intensidade. Sentiu a terra se abrindo para engolir outra vez suas escolhas irreversíveis. Para Diana, simbolicamente, Nicanor matou de novo um sonho de vida.

Enquanto Nicanor não sabia onde esconder sua vergonha num labirinto de terminais intermináveis, Diana seguiu seu vôo sem asas, sem céu, sem pouso. Cada minuto se alongava para ela assim como sua indescritível decepção com Nicanor. E o pior é que provavelmente jamais Nicanor teve a noção exata do mal encravado na alma de Diana. Jamais suspeitou quanta angústia instalou no coração dela. Jamais absorveu o quanto Diana chorou pelas escolhas conscientes, extremas e difíceis que favoreceram Nicanor.

Muito longe de Diana, sozinho e também sem rumo, Nicanor amargou, então, a desgraça de quem estava perdendo o sentido de sua existência. Nem quando ficou sem o Salmo 23 Nicanor sofreu e chorou tanto. Sem Diana a pnêumica de Nicanor ficou arrasada. Sua espiritualidade ficou sem fôlego, sem palavra. O símbolo se esvaziou sem desejo, sem deleite e sem destino. O acaso desviou para o descaso. A ocasião agrediu mais ainda os compromissos.

No tribunal de sua consciência, Nicanor se pegou investigado e o veredicto foi culpa com dolo. A acusação dos fatos cobrou pesado o delito de Nicanor: Como foi que deixou seu compromisso com Diana e se aventurou pelos meandros da farsa? O que justificou ou, pelo menos, explicou uma insanidade sem tamanho, exatamente por parte de quem se dizia tão apegado a princípios morais? Que tipo de exemplo ético acabou virando? Em que bolso ou gaveta de sua experiência escondeu a máxima de Wittgenstein sobre calar acerca do que não se pode falar?

Tempos depois Nicanor, desesperado e sofrendo como nunca, superou seu remorso. Arrependeu-se do fundo de sua alma e apostou com o acaso uma ocasião para pagar seu desperdício de flor, aos pés de Diana.
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(*) Sobre Dona Benta e seus filhos, conferir a postagem:
http://www.pneumica.com/2009/08/o-pao-de-dona-benta.html