30 Setembro, 2010

um sentido existencial

Para Ricardo, Helena e Carmo





por mediúnica esperança
noite adentro daquele sábado
guias encarnados de minh’alma
fiaram no ventre ausente e só
surpresas, sinais e silêncio
fluidificando plasma
de eterno afeto





Conforme referenciais deste blog, pnêumica é a espiritualidade corpoética, entendendo corpoética como um modo de pensar a complexidade do corpo em suas dimensões peculiares, históricas, valorativas e inovadoras. Essas dimensões envolvem, se interpenetram e salientam o que cada corpo é em seus (indissociáveis) aspectos materiais, emocionais e espirituais. Aliás, esse nível espiritual é o pnêuma, concebido como uma respiração concreta perceptível revestida por alguma inspiração abstrata imprescindível. Assim, na acepção aqui assinada, a espiritualidade é o corpo criando símbolos muito especiais para os desejos mais profundos e mais significativos. É um fôlego do espírito, um sentido para a existência. Óbvio que é possível viver sem sentido, porém essa alternativa é rara e exige uma estrutura corpoética mais rara ainda. O comum é a aceitação ou a criação de um sentido que justifique e legitime o viver para a própria existência corpórea.


São inúmeras as alternativas que figuram como sentido existencial. E dentro dessa imensa variedade destaca-se uma qualidade muito extraordinária de amor. Para tanto, esse amar deve corresponder a um desejo acima e além de outros desejos; um desejo tão denso e tão amplo que acaba se constituindo perspectiva e horizonte vitais daquele que ama. Como símbolo pnêumico, esse amar reapresenta um sentido existencial traduzido em sentimento e ação. Ou seja, esse amar nascido do espírito corpóreo é imagem e prática de um desejo simbolizador para o viver.


Além disso, e de um modo mais específico, parece consenso que amar alguém como sentido existencial é uma experiência repleta de sutilezas. Entre angústia e êxtase proliferam insondáveis e inefáveis nuances. Quem assim ama tropeça em lágrimas sobremodo onerosas bem como levita nas alegrias mais íntegras. Nada escapa ao que ama nessas condições; por isso sua existência não fica em dívida, nem duvida sobre o que seja viver mesmo, no limite do humano. Aquele que ama dessa maneira equilibra fel e fé no cadinho das apostas de luz; ou, por outro ângulo, saboreia o privilégio de celebrar o sublime tangenciando a felicidade.


Principalmente em contextos de crise esse amor como sentido existencial sustenta uma coerência contraditória. Por um lado, esse espírito flambado pelo amor não tem como mentir para si mesmo; assume a irresistível vocação do amor incondicional que sente pela outra pessoa, independentemente de tudo e todos. Por outro lado, sendo amor incondicional, o sentido da existência é atender sem reservas à pessoa amada, ainda que isso, eventualmente, resulte nos piores dos sofrimentos àquele que ama. Portanto, na crise fica intensificada a espiritualidade como símbolo-para-desejo. Afinal, mais do que nunca, na crise, o desejo acontece por causa de uma carência aguda na alma de quem ama; e o símbolo como substituto incompleto, precário e inexato presentifica justo um amado ausente.


Repetindo e comentando mais, o amar como sentido existencial guarda uma condição simbólica através de seu caráter sublime. A sublimidade desse amor é símbolo daquilo que a corporeidade vivenciou, vivencia, vivenciará e/ou vivenciaria fora do que é usual e costumeiro. É símbolo de sublimidade, portanto, o fato de esse amor ultrapassar previsões de todo tipo para as diferentes experiências relativas ao poder, ao prazer, à paixão etc.


Mas como convém ainda considerar com ênfase extrema, esse amor como sentido existencial é antes e para sempre experiência ímpar nos momentos felizes. Para algumas pessoas, além de significar o porquê e o para que viver, esse amor é o fato mais importante e o feito mais gratificante na vida. Nada se compara ao sentimento de alegria e à ação de ternura para quem ama pneumicamente. A plenitude possível da materialidade, da emotividade e da espiritualidade corpóreas alcança seu ápice nesse amar incondicional. Quem o experimenta, jamais deixa de guardá-lo carinhosamente em seu íntimo, haja o que houver. E se o imponderável ousar interromper a fluência desse amor como sentido existencial, nada diminui e nem destrói esse sentido existencial ao se continuar a amar assim mesmo sem a continuidade da poderosa, aprazível e apaixonante fluência. Nesse caso a pnêumica corpoética de quem ama-como-sentido-existencial declara sua teimosa esperança: antes de morrer, ainda viverei inteiramente meu amar com meu amor. Nenhum inverno aborta a primavera.