30 Outubro, 2010

comunhão secreta



Para Pri



A espiritualidade corpoética vive grávida de mistérios. Cordões da imaginação alimentam os vazios desejantes aonde símbolos vão embrionando jeitos de trazer à luz algum sentido para a existência. Do útero da alma ao prosaico cotidiano, a pnêumica guarda mistérios.

Quando essa experiência do fôlego existencial, mesmo diferentemente, entusiasma um conjunto de corpos, as pessoas envolvidas sentem uma sintonia pnêumica densa e versátil. As maneiras de esses mistérios serem referidos, ainda que jamais transferidos, são modos de comunhão, formas de comunicados muito particulares. Nessa troca espiritual pode ocorrer, às vezes, a partilha de segredos. Segredos são exclusividades verbais, gestuais ou de qualquer outra codificação criada à parte do que indistinta e comumente acontece.

Os segredos pnêumicos equivalem a determinadas representações simbólicas dos desejos mais profundos. Com esses segredos a alma não só configura novos signos na criação de sentido para a existência como também, mediante o segredo, reveste esse sentido de uma película protetora contra a abordagem e a invasão deletérias das banalizações de toda ordem. A propósito, a graça do segredo consiste, antes e acima de tudo, evitar a repetição ociosa.

No silêncio de um olhar eloqüente ou na saudade inefável revista e revisitada no recesso do coração florescem os segredos que sustentam sentidos para as existências de almas-geminadas-para-sempre. Assim acontece um exercício espiritual de cumplicidade afetiva ou política ou lúdica ou poética ou mítica etc. Independentemente do conteúdo do segredo pnêumico que congrega pessoas, a forma secreta da comunhão é que garante muitas vezes uma qualidade eterna na duração das existências. Ou seja, se o assunto do segredo é sempre do âmbito informativo, parece mais correto ainda supor que o recurso secreto é para sempre da esfera formativa – instância mesmo da irredutível pnêumica.

Assim, porque o fato de se comungar um segredo já é em si um gratificante sentido para a existência, o magma oculto desse segredo lateja astúcias vitais, e como uma chispa quântica se manifesta iluminando a vastidão desafiadora da noite pnêumica. O privilégio e a responsabilidade da comunhão secreta conferem à corpoética uma serena tensão, uma delicadeza aguda, com toda a incrível nuance que isso implica. E esse viver comunicativo-cúmplice espelha a intensificação mesmo da misteriosa aventura da existência humana. Plenitude pnêumica. Vida em abundância.