30 Novembro, 2010

remédio da alma





Para Quinita



Quando o sentido para a existência padece de hematomas azuis não há bálsamo que cure. Resta remediar com arte o que arte alguma restaura por completo. Pura ilusão a serviço da saúde do corpo alquebrado, no entanto lúcido; inconformado, todavia lírico - como soe acontecer a alguns que sozinhos e teimosos se socorrem na angústia.

A arte simula e nisso se porta veraz. Justamente por não se pretender pura e prática, sabe-se à perfeita tensão contraditória e estranha. Degusta a gratuidade criativa. Isso é tudo. Isso não garante coisa alguma. Aquém e além de qualquer condição, eis porque a arte se estoca e se administra como remédio da alma. Pnêumica salvífica.

Esse fármaco do fôlego vital é labor de oratório. Tal arte é experimentação analítica das fissuras perpetradas por faíscas que apunhalam e esgarçam sentimentos. É química silenciosa, sorriso sublimado, oração à esperança da paisagem oportuna. É pranto pelo avesso. É reza rio acima, rumo à rua do espírito sem resíduos.

No paradoxo profano, essa arte parece hino: louva a existência em meio a lacunas e mistérios. Nada desmancha e nada apaga certezas de alegrias outrora impecáveis. Daí a canção do sopro supremo em seu apocalipse absoluto: quem viveu, confessa. E, então, no desejo, deleite e destino, o fiel comunga o eterno sacramento da saudade íntegra e feliz no artesanato das reciclagens.

De mãos dadas com essa arte, a alma descansa de sua rotina e vertigem numa confiança maior. Feito leoa em sesta serena, seu âmago ansioso viaja pedaços de paz. Com tal arte a consciência dorme seu sonho de curvas e vírgulas. Como privilégio impagável, esse sono se resgata quando as janelas dos segredos se abrem para o sublime devir. Coragem de viver.

Com efeito, depois das tardes e madrugadas em vigília contra dores limítrofes, como é triste, profundamente triste, ficar descartado diante dos brindes à ressurreição. Por essa arte, entretanto, até a mais dolorida primavéspera transmuta-se em estrela dourada numa noite vangoghiana. E assim essa arte da superação se inspira no câncer da ostra para florescer sua poética de pérola.

E como arte final uma delicadeza executa seu réquiem de meio-tons. Em lugar de gritos desafinados, o coração carinhoso sussurra suas dissonantes sob harmonia de pautas terapêuticas. Apesar do descompasso e desencontro incontornáveis, ainda se evoca a ternura – essa música da arte de ser surreal na dignidade de um amém.