Povo é sinônimo de cultura. Entre os elementos culturais estão os ritos. Não há povo sem cultura e nem cultura sem rituais. A especificidade dos povos, das culturas e dos ritos embala a vida das pessoas em seus lugares e momentos. Esse embalar funciona, pelo menos, em três sentidos: como invólucro que protege; como balanço que acalenta; e como munição que potencializa. Em todos esses três sentidos há um caráter mágico.
A magia do rito depende muito do desconhecimento da história que explica e interpreta o rito. Essa ausência de domínio e manejo de dados políticos, econômicos e ideológicos sustenta e reforça a imaginação e a fantasia que as pessoas adquirem e reciclam ao logo dos tempos e regiões. Com isso as pessoas não percebem que o rito não tem poder em si, mas que sua força está na criação espiritual da corporeidade, sendo uma conquista de quem o pratica.
Talvez, numa perspectiva sobremodo polêmica, o sentido do rito corresponde a uma forma social de embalar a experiência da vida diante do imponderável, do surpreendente, do mistério. Esse recurso cultural faz um movimento de pêndulo: de um lado os desejos mais profundos da alma humana e de outro lado os símbolos mais competentes para expressar a aposta na vida. Por isso, é cabível supor que os ritos também sejam produções, processos e produtos da espiritualidade corpórea. Pertencem à pnêumica.
Necessário lembrar ainda não ser alguma eventual comprovação aquilo que sustenta os ritos. O âmbito da prática ritual não se submete aos critérios da demonstração científica ou da clareza filosófica. Aliás, muitas vezes é exatamente a ausência de provas que favorece a insistência ritual. Quanto menor o retorno lógico da racionalidade sobre a eficiência e a eficácia do ritual, maior é o investimento da fé. A dificuldade ou a inexistência das garantias dedutivas exercem grande fascínio e parecem justificar e legitimar o exercício ritual da crença. Fica sempre uma sombra de dúvida no espírito do crédulo: e se eu não for agraciado justo por não cumprir fiel e detalhadamente o rito?
Conforme parece aceitável, os detalhes dos ritos configuram discursos simbólicos. Apresentam linguagens verbais e/ou não verbais. Provavelmente os ritos não-verbais sejam, em sua grande maioria, criações populares. Na esfera popular as imagens, os gestos e as encenações ganham prevalência sobre expressões verbais. No registro popular importa mais é fazer do que falar. Este sem aquele, não vale muito; aquele mais este, por certo amplia valor. Portanto, mais do que dizer “vou pular sete ondas”, é imprescindível entrar na água e cumprir a coreografia dos saltos sobre os soluços da maré. Mais do que afirmar “vou trocar as folhas de loro na minha carteira de dinheiro”, é obrigatório renovar o estoque do tempero na panela portátil do numerário pro gasto e pro gosto cotidiano. Mais do que teorizar sobre isso ou aquilo, tem que haver a prática do ritual. E essa prática dos ritos é sagrada na pnêumica popular. Reveste o que é comum com uma aura de espiritualidade.
As pessoas se sentem estimuladas para a prática dos ritos por conta de um desejo, de um sentimento apaixonado, de uma emoção. O desejo reclama uma falta, uma carência. A paixão conduz a uma prática que é alheia ao juízo racional. A emoção encaminha complexos procedimentos rituais. Portanto, desde um desejo, por via de uma paixão, o impulso emocional faz com que as pessoas se movam, se movimentem de maneira concreta, até mesmo de modo pragmático. E o resultado disso pode ser a realização dos objetivos – que são, com efeito, outro rótulo até para os desejos guiados pelas paixões.
Em suma, portanto, muitas mudanças de atitude decorrem de percepções intuitivas, bem próximas ao campo das experiências rituais. Ou seja, o empenho na busca da realização dos sonhos tem um aliado nos rituais porque a própria prática do rito exige uma logística racional (ainda que, como sentido último, não dependa da racionalidade). Se não houver um cuidadoso preparo para a prática ritual, esta não ocorre. Esse cuidado preparatório, acrescido do cuidado operacional do rito mesmo, acaba por disciplinar e treinar a corporeidade para uma eventual e necessária metodologia noutras situações da existência. O apuro e a acuidade ritual podem, assim, acarretar qualificações geralmente imperceptíveis, porém bastante efetivas na gestão das práticas presididas pela razão e pela lucidez objetiva.
