Mais um jeito de comungar parece consagrado na contemporaneidade. Trocado o idioma e ajustadas novas formas simbólicas, aspectos importantes da provinciana pnêumica Hora da Ave Maria foram repaginados à moda do consumo metropolitano e rebatizados como happy hour. Por sinal, o horário foi praticamente mantido, próximo às 18h. E mais, sendo uma busca por um tempo feliz, nele companheiros de pântanos e nuvens abrem suas almas para confidências e confissões. Ocorrem ainda nesse tipo de encontro (... outro nome para ekklesia) reverberações secularizadas do que outrora eram as reuniões devocionais que nutriam algum sentido para a existência.
Dentre várias características, happy hour é momento de curtir conquistas, de chegar junto, de erguer astral, de sobrepor incentivos. Tudo ao vivo, colorindo a oralidade no seu fator mais inerente e necessário: a presença - esse privilégio claro, raro e caro: face-to-face, zóio-nu-zóio! Sem dúvida que nem sempre todas essas (e outras mais) características ocorrem num mesmo encontro. Afinal, happy hour não é um evento que segue um roteiro, uma série de procedimentos encomendados. A espontaneidade e a transparência geminadas com uma postura flexível são pressupostos imprescindíveis e inalienáveis desse tempo feliz. Portanto, há em cada ocasião o acontecimento sem ensaio, como puro improviso e nunca mais repetido.
Curtir conquistas é celebrar. É a espiritualidade em festa. Reino da alegria. Ao celebrar, o brinde cintila contentamento. E isso espoca brilho nos olhos. A vida ganha seu instante de glória. Com água ou bebidas fermentadas, o simpósio das almas transborda metáforas pelos nacos de pão. Sem dinheiro e sem preço que equivalham plenamente esse tempo feliz, a pnêumica sente um gosto de paraíso resgatado. E assim, a conquista celebrada imanta continuidade de projetos entre pessoas que se admiram, se respeitam e se amam.
Noutro contexto, a very special happy hour também é ocasião para a amizade traduzir consolo no instante da dor. Simpatia e empatia são experiências muitas vezes mais autênticas num papo de boteco do que em lugares formalmente rubricados para cura d’almas. Aliás, como expresso alhures, só quem de fato já pastou é que pode apascentar outros aflitos. A pastoral da consolação é preciosa e precisa, é bálsamo das palavras pontuais e dos silêncios envolventes. Entre a escuta acolhedora e o dizer mais desvelado, diante da unhappy flower, gente sincera exala uma essência sem máscaras – antídoto para o sofrimento do sofrimento do sofrer. E se sobra algum choro, lava-se a alma.
Nessa hora também se levanta o astral de quem está no outro lado da mesa ou de quem resvala cotovelo no mesmo balcão. Como pós-moderna benedícta tu in muliéribus, essa pnêumica um tanto isabelina promove novo alento, revigora o ânimo e salva o fôlego da falência. Eis a benção - a expressão mesclada com palavras adequadas, gestos eloqüentes, gírias cabíveis, e eventuais e oportunos palavrões; ou seja, um bendizer-com-boa-dose-de-bons-desejos. Isso sopra um ar luminoso no vazio corpóreo, exorcizando legiões de mentiras e seqüelas de rasteiras. Isso é como água viva para o balde da existência, socorrendo as vítimas dos sobressaltos. Isso resgata a réstia de estima do espírito, apalavrando poesia para a fome de futuro.
Enfim, mas sem significar limite, happy hour ainda é tempo feliz para lançamento de desafios. Contra posturas débeis e acomodatícias que desperdiçam potencialidades e qualificações, a conversa regada a sonhos se abre para o entusiasmo. Possuídos por pnêumica criativa, os amigos de galas, gelos e goles, cruzam os horizontes dos fatos e avançam, gulosamente, espe(ta)culos adentro. Correm para o destino decisivo: conquistar a plena vivência de si mesmos. Às vezes, sem saber, propõem algo demasiado. Aperitivo com sabor de aposta. E assim se habilitam para alcançar o imprevisível, o diferente, o inédito. Ave magia!
