Como adverte aquele texto sagrado dos hebreus, há tempo para tudo; para ficar calado e para falar. E nesta postagem quero falar sobre ficar calado. Também demonstrou um importante vienense (... e assíduo leitor do referido texto) que sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar. E nesta página, em singela homenagem acima indicada, pretendo aludir sobre um silêncio solitário e solidário.
Sei que ficar calado não equivale de maneira necessária escutar. A ausência do verbo não estabelece obrigatoriamente o acolhimento aos signos que circulam. Por isso, o silêncio nem sempre está no registro da comunhão. Porém, por grato aprendizado, ainda que sutil, uma comunhão há quando o silêncio profere seu dizer, mesmo sem falar.
Ainda reconheço que a solidão é uma experiência mais abstrata, subjetiva. Ocorre tanto no evidente isolamento corpóreo quanto em meio à complexa aglomeração social. É um caso e não uma coisa. A solidão, portanto, parece mesmo compor um estado de espírito. Situação pnêumica. Mescla de verdade última com matriz virtual.
Quando a alma está só, finalmente em sintonia com sua humana origem semiótica e seu inexorável fim ôntico, um sublime gozo a vivifica. Nessa solidão repousa uma serenidade digna. Porém, quando a capsula do espírito – bolha fugaz – se angustia no vai-e-vem sem sentido, a explosão do nada está por um triz. Nessa solidão se agitam dores e coisa alguma, e ninguém, consegue aplacar as terríveis fisgadas dessa câimbra no músculo da alma. Em suma, solidão, mais que tudo, é ventre para partos e abortos.
Assim, na condição solitária pode nascer uma comunhão solidária se emergirem chispas de vivência plena, um viver absoluto das relativas circunstâncias. O requisito indispensável da solidariedade é, pois, a qualificação alcançada no vestíbulo do desnudamento solitário. As cócegas e os arrepios da alegria... As coceiras e os hematomas da tristeza... Tudo isso e muito mais precisa acontecer na solidão para que seja preciosa a solidariedade. E isso ocorrendo, até o silêncio solitário traz à luz a comunhão solidária.
Enfim, a solidão, o silêncio e a solidariedade se espalham e se espelham como gêmeos pelos pedaços do mundo. Pedaços pequenos. Muito pequenos. Pedaços que cabem apenas nas pelagens da alma – esse infinito sem fim, esse pleonasmo a esmo. Sim, solidão, silêncio e solidariedade passeiam de mãos dadas e visitam os noturnos contornos do coração, como gatos fantásticos pelos campos de peixes, como rios sórbios por montes reais... E eis ainda uma inconfidência meio cifrada (quase wittgensteinianamente eclesiástica): solidão, silêncio e solidariedade às vezes sonham ganhar nomes próprios; gostariam de atender por Aninha, também por Dusty, ou mesmo Kate...
