Para Flávio Irala, Esequiel Gonçalves e Caetano Teixeira
Já não é sem tempo que o assunto/título merece alguma referência nessas postagens. Por suposto, um registro sobre espiritualidade corpoética deve ser uma pnêumica também interessada pelos assuntos ecumênicos.
Assim, considerando que o termo grego oikoumene em sua acepção mais consagrada equivale a todo o mundo habitado, aproveito essa alusão à completa abrangência para lembrar ligeiramente três aspectos: quanto o caráter ecumênico implica, pressupõe e se justifica pelas variações valorativas do espírito; como crescem e nem sempre se convergem esses diversos valores para a espiritualidade corpórea; e por isso mesmo quão valioso pode ser a ecumenicidade como uma espécie de elogio à diferença pnêumica.
Admitindo que a invenção pnêumica encante a própria corporeidade, entendo que essa poética do espírito, em si, é motivo suficiente para celebração, pelo menos por parte desse corpo criador. Afinal, essa pnêumica corresponde a uma afirmação da corpoética – condição que tanto desvela a individualidade quanto se abre para a alteridade. Ou seja, pela criação espiritual também se caracteriza a diferença de cada corpo. E quando tal fato corpóreo é percebido como potência de todos os corpos, a ecumenicidade suscita um acolhimento inclusivo do outro corpo, oportunizando âmbitos de comunhão.
Conforme venho expondo neste blog, toda pnêumica consiste numa espécie de arte simbólica que atenda ao eventual desejo de sentido para a existência da corporeidade; por isso, a espiritualidade corpoética é aberta e sem limitações de qualquer ordem. Nessa perspectiva, a pnêumica é ecumênica numa conotação da espiritualidade de fundo (fundante e fundamental), anterior até mesmo àquela que toma formas religiosas e doutrinárias (... por sinal, formas legítimas, geniais e pragmáticas).
Noutras palavras, como conceito, o caráter ecumênico da pnêumica tem a ver com o reconhecimento, o desdobramento e o arrebatamento do corpo diante de algo significativo em maior grau (às vezes, absoluto). Tal grandeza é moldada pelos fatores específicos de lugar e época. É o corpo em toda e qualquer cultura reconhecendo sua situação comum de mortal, e que se desdobra para forjar um significado que lhe arrebate. Essa catarse pnêumica é, portanto, tão ecumênica (tão secularizada, tão sem-fronteira, tão todo-mundo-habitado) que tende a sublinhar e sublimar todas as diferenças e pluralidades de sentido.
Toda espiritualidade corpórea, por conseguinte, apenas se reduz na gratuidade: a graça do corpo criando paixões para a vida.
