31 Julho, 2011

adega pnêumica






Para Christian et Margot





Espírito espumante

Nas câmaras da história, a natureza e o trabalho se seduzem em apelos e apertos. Densos bagos acolhidos por tesas mãos afogam de cores e aromas corpos sedentos de sentidos. Nessas núpcias pulsa vida pelas veias da paixão. E a escorrer no leito do tempo, qual mancha sangrando de prazer, se abre espaço para mais um desejo: n'outro beijo, o gozo do vinho.



Espírito rosé

Quando a palavra do corpo é gesto de alegria, nostalgia; gosto de amor, amargor... Melhor ouvir o silêncio dos cálices se quebrar ao som das volúpias de um gargalo prenhe de vinho.



Espírito seco

Sob as parreiras, tantos sonhos alçaram tesouras, tantas senhas incharam tesouros, tantas manhas lincharam terceiros, tantas manhãs lançaram terrores: sob as parreiras, cultuando desvalores para a casa – clareiras na floresta de curtume escatológico – assim diz o opressor: veni, vidi, vici.

Sob as parreiras, ainda uma saída ainda que sofrida; ainda um horizonte ainda que distante; ainda um encontro ainda que sozinho; ainda aquele sonho porque imprescindível: sob as parreiras, cultivando amores e asas – lareiras na festa do perfume antropomágico – assim diz o oprimido: veni, vidi, vínum.



Espírito suave

Se a chuva caiu como luva sobre a pele da uva. Se os abraços dos anéis de ferro fundido foram fiéis à vontade vertida no ventre dos tonéis...; que mais senão amar, doar e trocar: brindar.

Então vem, vagueia e voa; boleia uma bem boa; desbloqueia o que destoa...; para que um novo lugar lembre o antigo lagar lambendo luz do luar.

Por isso vem; pois vou indo contar meu enredo enquanto te caminho. Por isso vem; vem vindo a cantar meu segredo enquanto te ad-vinho.



Espírito tinto

Topos: penetrações de bios; colo e sala das utopias.

Eros... E eis os nossos corpos bebendo isso em memória (mistérios da vida).

Cronos: variações de necros; cela e vala das entropias.

Tanatos... E eis os nossos corpos bebendo isso in glória (mistérios da morte).

Demos: situações do logos; cala e fala das idiossincrasias.

Theos... E eis o nosso cálice fazendo disso estória (mistérios do vinho).