Para Ruth, Zara e Zizinho; Adriana, Márcio e Luana.
Como sói acontecer com gente há muito nascida e criada em pequenas e pacatas cidades do interior, também fiquei meio abobado quando conheci o mar.
Recordo detalhes de quando ainda (... ou, já?) era adolescente. Durante a descida na serra, num Gordini gordinho de gente, frango & farofa, me senti ensurdecido num tanto que, tonto, engolia ansiedades a cada curva da Anchieta.
Avistando o Atlântico a uma distância tão imensa quanto a vontade de chegar, me emudeci numa alegria azul..., até que na Praia do José Menino a brisa arrepiou penugens de menino-zé.
Ao pisar na areia surpreendentemente quente percebi que os pés se afundavam com facilidade, dificultando meu passo apressado. Depois, ao correr pelo chão espelhado que espalhava espumas, me encantei com assoviantes cosquinhas ao resvalar das passadas.
Quando entrei na água o vai-e-vem das ondas malandras me desequilibrava e caí muitas vezes com o bum-bum pra riba. Mas, de imediato recomposto, me pegava sorrindo de contente. No céu da boca grudou o gosto de um tempero que se desperdiçava na gratuidade..., enquanto meus olhos saboreavam estrelas em claro dia.
No limiar da perplexidade, quase sequestrado dos limites de tempo-e-espaço, por breves e densos mo(vi)mentos me encontrei ao me encontrar como que perdido. Acho até que meu corpo experimentou a eternidade, resgatando um pouco da minha história...
Quando voltei para a casa branca das boçorocas, passando pelas campinas das andorinhas, me dei conta que estava com ânimo e entusiasmo ampliados, mais apaixonado pela vida.
Esses parágrafos autobiográficos precariamente pretendem salientar uma saudosa pnêumica da praia. Aliás, praia é fronteira simbólica contaminadora: de um lado está o que agita e oscila a superfície da sobrevivência; de outro lado o que atrai e desafia apostas mais profundas. Esses lados, ainda que opostos, não se excluem; mas no contraditório se complementam. Praia é, pois, tanto interstício quanto intersecção; é fiapo híbrido separando e conjugando alguma segurança de planície ou planalto e muito mistério marinho.
Para quem não mora no litoral, passear pela praia sugere sair do curso cotidiano; é um ex-cursionar incomum, extra-ordinário. Há nesse passeio um apelo punctual fisgando o pnêuma além das provocações psico-somáticas. Tal caminhar areja horizontes existenciais desenhando silhuetas de sentido.
Metaforicamente, o mar é música. Seu fraseado fugidio parece notação a pautar alguma chave interpretativa para variações, incluindo o silêncio. Assim, enquanto passeia pela praia, o corpo afina seu pnêuma inalando imagens e fantasias para exalar memória eucarística: sacramento visceral: ainda viver!
