Para Sergio e Leila
Mais uma vez aqui e agora uma experiência pessoal. Faço menção ao que vivenciei com minha esposa na entrada de 1998. Desejo, a propósito, que essa exposição seja desculpada, pois apenas pretendo sublinhar um detalhe da pnêumica como sacaramento – uma sacada com cara de sacramento (conforme já publiquei neste blog em abril de 2010, num texto dedicado a outro Sergio Marcus).
Em meados do segundo semestre de ’97 ouvíamos colegas comentando seus planos de viagem para o réveillon. Alguns anunciavam com certa afetação esnobe que iriam espocar champagne próximos à emblemática torre da Cidade Luz, ou nas encantadoras e geladas avenidas da Big Apple, ou nas praias badaladíssimas sob as bênçãos do Redentor.
Em meados do segundo semestre de ’97 ouvíamos colegas comentando seus planos de viagem para o réveillon. Alguns anunciavam com certa afetação esnobe que iriam espocar champagne próximos à emblemática torre da Cidade Luz, ou nas encantadoras e geladas avenidas da Big Apple, ou nas praias badaladíssimas sob as bênçãos do Redentor.
Cá entre nós, sem muita grana e também sem grilos, começamos a pensar numa comemoração meio arteira: um réveillon que nos permitisse depois dizer com boca cheia aos tais colegas que estivemos em um lugar cujo nome não trouxesse a menor nuance de charme e sofisticação. Queríamos reinventar uma gratuidade celebrativa na total ausência de gracinhas consagradas. Buscávamos um meio de graça que nos salvasse das mistificações dos sistemas e escaninhos de aperreios travestidos de glamour. Pretendíamos fugir das seduções do mundo-cão para arriscarmos criar algum sentido pontual e provisório; porém prazerosamente punctual, fisgador de contentamento mais denso para a existência.
E assim, tendo como critérios a duvidosa elegância do seu nome e a inusitada suposição como lugar atraente, nós decidimos visitar uma pequena cidade localizada a cento e cinqüenta quilômetros de nossa casa. De fato, a história dessa centenária comarca abriga momentos memoráveis e personagens ilustres. Contudo, nosso interesse naquelas ruas e praças era muito mais discreto e despretensioso. Lá chegamos pela manhã do último dia do ano, sem reserva para hospedagem, e nos instalamos numa pousada muito simples. Tomamos nossas refeições na trivialidade. Contornamos, à distância, ceias divulgadas por buffets e clubes sociais. Descontraidamente passamos o tempo na surpresa do instante e na leveza do estar-junto-por-inteiro.
Por volta da meia-noite nos aproximamos do que julgávamos ser o centro daquela cidade. Entramos e saímos da Igreja Matriz, onde poucos fiéis rezavam. Preferimos sentar à beira do meio-fio do calçamento. Ouvimos as doze baladas do campanário. Brindamos o ano novo bebendo água de uma garrafinha de plástico, comprada no balcão do bar da esquina. Ficamos ali agachados conversando por muito tempo, profundamente felizes.
Essa experiência singela nos marcou a ponto de sempre ser mencionada quando nos referimos aos nossos melhores réveillons. Pneumicamente nós vivemos na simplicidade de sublime sarjeta uma complexa superação dos constrangimentos oportunistas do embuste da zero-hora-mágica. Aliás, todos nós sabemos de inúmeras situações festivas de final de ano (... e nos incluímos nessas circunstâncias muitas vezes ainda) em que as farsas e os desgastes do espírito-de-pseudofilia baixam com mais freqüência, maior preferência e imensa inconseqüência.
Sempre conviria perguntarmos por que tanto mal estar nessa civilichatice? As respostas são todas bem vindas. Uma em particular: esquecemos que a definição cultural determinando um dia como 31 de dezembro é historicamente arbitrária e coincidiria com um dia 19 de março ou com um dia 19 de setembro noutra marcação igualmente arbitrária noutra configuração histórica. Não há diferença necessária entre os dias, exceto suas peculiaridades naturais. Nossos símbolos é que fazem toda a diferença. E os símbolos, sendo nossos, por que não reinventá-los sempre?
O melhor disso tudo foi que nossa entrada em 1998 nos confirmou uma criança ainda sobrevivente em nós. Ela esperneia e quer brincar de outra coisa, jogar outra pnêumica, saborear outra espiritualidade. E essa reinação nos resgata quando nos damos o desfrute de sermos mais inteiros na intimidade e cumplicidade em meio ao cotidiano imprescindível.
Quem sabe, talvez, o que importou mesmo naquele révellion e que deveríamos repetir todo-santo-dia é que eternizamos a noite, qualificamos a passagem, e despertamos a criatividade. No sentido pnêumico a repercutir o étmo franco réveiller, conseguimos acordar ao refazer símbolos para nossa vida.
